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A Lei ou Cristo?
A Lei ou Cristo?

O VERDADEIRO FUNDAMENTO


"Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei." - Romanos 3:28

 

Autor: D. Martin Lloyd-Jones


[Extraído do Capítulo 2, livro DEPRESSÂO ESPIRITUAL, Editora PES]

 


Quero examinar esta declaração à luz do texto básico do capítulo anterior.


Não há dúvida que o problema conhecido como depressão espiritual é bastante comum. De fato, quanto mais o estudamos e falamos sobre ele, mais descobrimos como ele é comum. Estamos estudando este problema, como eu já mencionei, por duas razões principais. Primeira, é desolador que alguém tenha que permane­cer em tal condição. Mas a segunda razão é ainda mais importante e séria; é que tais pessoas são péssimas representantes da fé cristã. Ao enfrentarmos o mundo moderno, com todas as suas perturba­ções e turbulências, com suas dificuldades e tristezas, nós, que nos dizemos cristãos e professamos o nome de Cristo, devemos representar nossa fé diante dos outros de tal maneira que eles digam: ' Aí está a solução. Aí está a resposta". Num mundo em que tudo perdeu o rumo, devemos nos sobressair como homens e mulheres caracterizados por uma alegria e segurança interior inabaláveis, apesar das circunstâncias e adversidades. Creio que concordarão comigo quando digo que este é um quadro que tanto o Velho como o Novo Testamento apresentam do povo de Deus. Esses homens de Deus se sobressaíram porque, quaisquer que fos­sem as circunstâncias e condições, eles pareciam possuir um segre­do que os capacitava a viver em triunfo, sendo mais que vence­dores. Portanto, é imprescindível que examinemos o problema da depressão espiritual muito de perto.


Já analisamos o problema em geral, bem como algumas de suas causas principais. Vimos que a essência do tratamento, de acordo com o salmista, é que devemos nos enfrentar a nós mesmos.


Em outras palavras, devemos falar com nosso "eu" interior, em vez de permitir que ele fale conosco. Devemos assumir o controle de nós mesmos, falando com a nossa alma, como o salmista fez, perguntando: "Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim?" "Você não tem o direito de se sentir assim. Por que está tão desanimada e abatida?" Ele se enfrenta e fala consigo mesmo, discute consigo mesmo e se coloca nova­mente numa posição de fé. Ele se exorta a ter fé em Deus, e então está em condições de orar a Deus.


Quero examinar este método defendido pelo salmista. O prin­cípio vital é que devemos nos enfrentar e examinar a nós mesmos, e se estamos entre aqueles que parecem nunca conhecer a alegria da salvação e o gozo do Senhor, precisamos descobrir a causa. As causas podem ser muitas, e em minha opinião, a essência da sabedoria nesta questão é tratar dessas causas, uma por uma, e examiná-las em detalhe. Não devemos tomar nada por certo. Na verdade, creio que poderia ser facilmente constatado que a maior causa de problemas nesta área, é a tendência fatal de tomar certas coisas como garantidas. Quanto mais eu falo com as pessoas sobre isso, mais vejo que é este o caso. Há tantas pessoas que parecem nunca chegar a uma posição firme sobre a fé cristã, porque não chegam a uma definição clara em sua mente quanto a certos pontos primários, certas coisas fundamentais que deviam ser trata­das no princípio.


Embora correndo o risco de ser mal compreendido, vou apre­sentar isto assim: o problema específico do qual estamos tratando tem a tendência de ser mais comum entre aqueles que foram criados e educados de maneira religiosa, do que entre os que não foram criados e educados dessa maneira. Parece afetar mais aqueles que foram criados em lares de famílias cristãs, e que sempre foram levados a lugares de adoração, do que aqueles que não foram. Há muitos que parecem atravessar a vida da forma que Shakespeare descreveu como "presos em superficialidade e miséria". Parece que nunca saem disso. Estão envolvidos na igreja, e muito interessados em assuntos cristãos; todavia, se os compararmos com a descrição que o Novo Testamento faz da "nova criatura em Cristo", veremos imediatamente uma grande diferença. De fato, eles mesmos vêem isso, e muitas vezes é a causa principal da sua depressão e infeli­cidade. Eles vêem outros cristãos se regozijando, e dizem: "Bem, não posso dizer que sou assim. Essa pessoa tem algo que eu não tenho" — e dariam tudo para obter o que a outra pessoa tem.


Eles lêem biografias de santos que enriqueceram a vida da Igreja Cristã, e admitem logo que não são assim. Sabem que nunca foram assim, e que essas pessoas obviamente usufruíam de algo que eles mesmos nunca tiveram.


Há um grande número de pessoas nessa situação infeliz. Para elas a vida cristã parece ser um constante problema, e estão sem­pre fazendo a mesma pergunta: "Por que não posso chegar a esse nível? Por que não posso ser assim?" Lêem livros que oferecem princípios da vida cristã, vão a reuniões e conferências, sempre em busca desse algo que não conseguem encontrar. E ficam desa­nimadas, sua alma fica abatida e inquieta dentro delas.


Ao tratar com tais pessoas, é de importância vital certificar-se que os princípios básicos e fundamentais da fé cristã estão claros em suas mentes. Vezes sem conta, eu descobri que o verda­deiro problema delas estava nisso. Não digo que não fossem cristãs, mas eu diria que são entre os que chamo de "cristãos miserá­veis" — simplesmente porque não entenderam o caminho da sal­vação, e por isso todos os seus esforços em geral resultaram em nada. Muitas vezes se concentram no assunto da santificação, mas isto não os ajuda, porque não entenderam a justificação. Supondo que estão no caminho certo, acham que tudo que precisam fazer é continuar nele.


É um ponto interessante para investigação teológica, se tais pessoas são cristãs ou não. Eu, pessoalmente, diria que são. John Wesley é um exemplo clássico. Eu hesitaria em afirmar que John Wesley não era cristão antes de 1738; mas tenho certeza que ele não havia entendido o caminho da salvação como sendo somente através da justificação pela fé, até 1738. Em certo sen­tido ,ele concordara com todos os ensinos da Bíblia, mas sem captá-los ou compreendê-los plenamente. Não tenho dúvida nenhu­ma que, se o tivesse interrogado, ele teria dado todas as respostas corretas, até mesmo sobre a morte do Senhor Jesus; no entanto, em sua experiência ele não tinha uma compreensão clara da justi­ficação pela fé. Foi somente depois de seu encontro com os irmãos morávios, e especialmente após uma conversa com um deles, cha­mado Peter Bohler, numa viagem de Londres a Oxford, que ele verdadeiramente compreendeu essa doutrina vital. Ali estava um homem que tinha tentado encontrar felicidade em sua vida cristã através do que fazia — pregando aos prisioneiros em Oxford, renunciando à cátedra que ocupava na universidade, e enfrentando os perigos de uma viagem através do Atlântico para pregar aos pagãos da América. Estava tentando alcançar a felicidade seguindo um certo padrão de vida. Contudo o seu problema todo residia no fato que John Wesley nunca tinha realmente compreendido a dou­trina da justificação pela fé. Ele não tinha entendido o versículo que estamos considerando: "Concluímos pois que o homem é justi­ficado pela fé sem as obras da lei". Parece quase impossível que um homem assim, criado num lar excepcionalmente piedoso, e que passara sua vida toda no trabalho cristão, pudesse ter uma com­preensão errada a respeito de um ponto tão básico e fundamental — mas assim foi!


E eu diria que esta é a situação de um grande número de pessoas ainda hoje. Elas supõem estarem certas a respeito das coisas básicas, mas nunca entenderam sua justificação, e é exata­mente aí que o diabo causa confusão. Agrada-lhe que tais pessoas estejam preocupadas com santificação e santidade e coisas assim, mas elas nunca encontrarão o caminho certo até que esclareçam este aspecto, e portanto é aqui que devemos começar. Não adianta tratar da estrutura, se o alicerce tem falhas. Então devemos come­çar por esta grande doutrina. Esta confusão é um problema antigo. Num certo sentido é a obra-prima de Satanás. Ele até nos enco­rajará a sermos justos, enquanto puder nos confundir neste ponto. E ele está conseguindo isso, a julgar pelo fato que as pessoas na Igreja hoje em dia parecem considerar como cristão aquele que faz boas obras, mesmo estando inteiramente errado sobre esta verdade básica. É um problema antigo, e era o problema essencial dos judeus. É o que o Senhor Jesus estava dizendo constantemente aos fariseus, e certamente era o maior argumento que o apóstolo Paulo tinha com os judeus. Eles estavam completamente errados quanto a toda a questão da lei, e o maior problema era mostrar-lhes o ponto de vista certo sobre isso. Os judeus criam que Deus dera a lei ao homem para que ele pudesse se salvar, observando-a. Diziam que tudo que alguém precisava fazer era observar a lei, e que poderia alcançar a justificação mediante isso; e se essa pessoa vivesse de acordo com a lei, Deus a aceitaria, e Ele Se agradaria dela. E pensavam que podiam fazer isso, porque nunca tinham entendido a lei. Interpretaram-na à sua própria maneira, tornando-a em algo que estava ao seu alcance — e assim pensaram que tudo estava bem. Este é o quadro que os Evangelhos e todo o Novo Testamento dão a respeito dos fariseus. Era o problema dos judeus e ainda é o problema de muita gente hoje. Precisamos entender que há  certas coisas  que devem estar bem  claras em nossa mente, antes de podermos realmente ter paz e usufruir as bênçãos da nossa vida cristã.


Este ponto preliminar pode ser esclarecido através de uma exposição geral do terceiro capítulo da carta aos Romanos. Na verdade, os primeiros quatro capítulos dessa grande epístola são dedicados a esse tema. A verdade principal que Paulo estava ansio­so por esclarecer era a mensagem da justiça de Deus, que é pela fé em Jesus Cristo. Ele já tinha declarado, em Romanos 1:16-17: "Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: mas o justo viverá pela fé". Mas então surge a pergunta: Por que nem todos criam nisso? Por que essa mensagem não foi aceita automaticamente por todos que a ouviram, como a melhor notícia já anunciada ao mundo? A resposta é que eles não creram porque não viram a necessidade disso. Tinham um conceito errado de justiça. A justiça de que Paulo fala significa um relacionamento correio com Deus. Não existe felicidade, não existe paz nem regozijo à parte de um rela­cionamento correto com Deus. E com isso todos concordam — tanto o cristão miserável como o cristão seguro. Mas a diferença entre um e outro, é que o cristão miserável tem um conceito errado sobre como alcançar a justiça de Deus. Esse também foi o proble­ma dos judeus. Eles, como eu já disse, declaravam que a justiça é alcançada através de uma conformação e observância da lei, como eles a entendiam. Mas eles tinham um conceito completamente errado da lei. Eles a perverteram de tal forma que o próprio meio que Deus lhes deu para esclarecer o caminho da salvação tornou-se nas mãos deles o maior obstáculo a essa salvação.


Qual, então, é o ensino? Há certos princípios, bastante sim­ples, que precisamos entender antes que possamos realmente usu­fruir dessa salvação cristã. O primeiro é convicção de pecado. Precisamos ter uma visão clara da nossa pecaminosidade. Aqui, vou seguir o método do apóstolo Paulo, levantando uma objeção imaginária. Imagino alguém dizendo imediatamente: "Você vai pregar sobre pecado, vai pregar sobre convicção de pecado? Você diz que seu objetivo é nos levar à felicidade, mas se vai pregar sobre convicção de pecado, isso vai nos tornar ainda mais infe­lizes. Você está deliberadamente tentando nos levar à miséria e ao desespero?" A minha resposta é: Sim! Este é o ensino do grande apóstolo nestes capítulos. Pode parecer um paradoxo — o termo realmente não importa — mas acima e além de qualquer dúvida, esta é a regra, e não há exceções. Você precisa passar por miséria e desespero, antes que possa conhecer a verdadeira alegria cristã. Na verdade, o grande problema do cristão miserável é que ele nunca foi levado a se sentir verdadeiramente miserá­vel por causa de convicção de pecado. Ele ignorou a preliminar essencial à alegria, presumindo algo que não tem o direito de presumir.


Deixem-me colocar isso num contexto bíblico. Lembram-se do velho Simeão segurando o Senhor Jesus Cristo, ainda bebê, em seus braços? Ele fez uma declaração muito profunda, ao dizer: "Eis que este é posto para queda e elevação de muitos em Israel". Não existe elevação sem que tenha havido uma queda antecedente. Esta é uma regra absoluta, e no entanto é algo que está sendo completamente esquecido por muitos hoje em dia, e mal interpre­tado por muitos outros. As Escrituras, porém, têm uma ordem, e essa ordem deve ser observada, se vamos usufruir os benefícios da salvação. Em última análise, a única coisa que vai levar o homem a Cristo, e fazê-lo confiar somente nEle, é uma verdadeira convicção de pecado. Erramos porque não somos verdadeiramente convictos do nosso pecado. É por isso que digo que este é um problema que afeta particularmente todos aqueles que foram cria­dos num ambiente cristão ou religioso. O seu maior problema, muitas vezes, é uma idéia errada do pecado. Lembro-me de uma pessoa que expressou isso de forma dramática em certa ocasião. Era uma senhora que fora criada num lar muito religioso, assídua frequentadora da igreja, sempre envolvida nas suas atividades. Era membro de uma igreja onde várias pessoas tinham se convertido de repente dos seus caminhos mundanos e vida pecaminosa — bebida, e coisas assim. Lembro quando ela me disse: "Sabe, eu quase chego a desejar que não tivesse sido criada da maneira que fui criada, e que tivesse vivido o tipo de vida que essas pessoas viveram, para também ter essa experiência maravilhosa". O que ela queria dizer com isso? O que ela realmente estava dizendo era que nunca tinha se visto como uma pessoa pecadora. Por que não? Há muitas razões. Esse tipo de pessoa, quando pensa em pecado, pensa em termos de ações, de atos. Não só isso, mas em termos de certos atos em particular, apenas. Então, sua tendência é pensar que, uma vez que não é culpada desses pecados especí­ficos, então não é realmente pecadora. De fato, às vezes o expressa bem claramente, dizendo: "Eu nunca pensei em mim mesmo como um pecador; mas, naturalmente, isso não é de espantar, uma vez que minha vida foi muito protegida desde o começo. Nunca fui tentado a fazer essas coisas, então não é de espantar que nunca tenha sentido que sou um pecador". E aí vemos a essência desse engano. Essas pessoas pensam em termos de ações, certos atos em particular, e em termos de comparação com outras pessoas e suas experiências, e assim por diante. Por' essa razão nunca tiveram uma convicção real de pecado, e por isso nunca viram claramente sua absoluta necessidade do Senhor Jesus Cristo. Ouviram pregar que Cristo morreu por nossos pecados, e dizem crer nisso; mas nunca chegaram a realmente reconhecer a sua absoluta necessidade pessoal disso.


Como, então, podem tais pessoas chegar à convicção de peca­do? Esse é o assunto de Paulo neste capítulo três da Epístola aos Romanos. Ele realmente tratou disso através do segundo capítulo também. E esta é sua grande tese: "Não há um justo, nem um sequer; porque todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus". Quem são esses "todos"? Ele deixa claro: tanto judeus como gentios. Os judeus, é óbvio, concordariam que os gentios eram pecadores, fora da aliança, transgressores contra Deus. "Mas esperem um pouco", Paulo diz: "vocês também são pecadores!" A razão por que os judeus odiavam Cristo e O crucificaram, a explicação da "ofensa da cruz", a razão por que Paulo foi tratado daquela forma por seus conterrâneos que odiavam a fé cristã, era que a fé cristã declarava o judeu tão pecador como o gentio. Ela asseverava que o judeu — o qual pensava que sempre tinha vivido uma vida justa e religiosa — era tão pecador como o peca­dor mais ímpio entre os gentios. "Todos pecaram"; judeus e gen­tios estão igualmente sob condenação diante de Deus.


O mesmo é verdade hoje, e se vamos levar a sério a convicção de pecado, a primeira coisa que devemos fazer é parar de pensar em pecados específicos. Quão difícil é isso para todos nós, pois todos temos esses preconceitos. Restringimos o pecado apenas a certas coisas, e se não somos culpados dessas coisas, pensamos que não somos pecadores. Todavia, essa não é a forma de se chegar à convicção de pecado. Não foi assim que John Wesley chegou a entender que era pecador. Lembram-se o que o levou à convicção de pecado? Começou quando ele viu a forma como certos irmãos morávios agiram durante uma tempestade em pleno oceano Atlân­tico. John Wesley estava apavorado com a tempestade, e com medo de morrer; os morávios não. Pareciam tão felizes e tranquilos em meio à tempestade como se o sol estivesse brilhando. John Wesley percebeu que tinha medo de morrer; de algum modo ele não conhecia a Deus da forma como aquelas pessoas O conheciam. Em outras palavras, ele começou a sentir sua necessidade, e isso é sempre o começo da convicção de pecado.


O ponto essencial aqui é que você não chega à convicção de que é pecador comparando-se com outras pessoas, e sim chegando face a face com a lei de Deus. Bem, o que é a lei de Deus? "Não matarás, não furtarás"? "Nunca fiz essas coisas, então não sou um pecador". Meu amigo, isso é apenas parte da lei de Deus. Você gostaria de saber o que é a lei de Deus? Aqui está: "Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças: este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Marcos 12:30-31). Esqueça tudo sobre bêbados e outros assim, esqueça as pessoas sobre quem você lê na imprensa atualmente. Aqui está o teste para você e para mim: você está amando a Deus de todo o seu coração? Se não está, você é um pecador. Esse é o teste. "Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus". Deus nos criou, e nos criou para Si mesmo. Ele criou o homem para Sua própria glória, e com a intenção que o homem vivesse inteiramente para Ele. O homem devia ser representante de Deus e andar em comu­nhão com Ele. Devia ser o senhor do universo, e devia glorificar a Deus. Como está no Catecismo Menor: "O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre". E se você não está fazendo isso, você é um pecador da pior espécie, que reconheça e sinta isso ou não.


Ou deixem-me colocar de outra forma. Considero este um modo válido de apresentar o assunto. Deus sabe que estou pregando a minha própria experiência a vocês, pois tive uma formação muito religiosa. Também estou falando da minha experiência a vocês como alguém que frequentemente ajuda pessoas que foram criadas da mesma maneira. O homem foi criado para conhecer a Deus. Então a pergunta é: vocês conhecem a Deus? Não estou pergun­tando se vocês crêem em Deus, ou se crêem em certas coisas sobre Ele. Ser um cristão significa ter a vida eterna, e como o Senhor Jesus disse em João 17:3: "E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste". Então o teste que devemos aplicar a nós mesmos não é perguntar se fizemos isto ou aquilo. Meu teste é um teste positivo: "Eu conheço a Deus? Jesus Cristo é real para mim?" Não estou perguntando se vocês sabem coisas a respeito de Deus, mas se conhecem a Deus, se se alegram em Deus, se Deus é o centro de suas vidas, a alma do seu viver, a fonte da sua maior alegria? Ele deve ser. Ele criou o homem para isso — para que habitasse em comunhão com Deus, e se regozijasse nEle, e andasse com Deus. Nós fomos criados para isso, e se não estamos vivendo assim, isso é pecado. Isso é a essência do pecado. Não temos o direito de não ser assim. Isso é pecado, em sua forma pior e mais profunda. A essência do pecado, em outras palavras, é que não vivemos inteiramente para a glória de Deus. Naturalmente, ao cometer certos pecados, agravamos a nossa culpa diante de Deus, mas vocês podem ser inocentes de qualquer dos pecados mais vis, e ainda assim serem culpado desse terrível pecado — de estarem satisfeitos com suas próprias vidas, de terem orgulho das suas realizações, e de olharem para os outros com superioridade, sentindo que são melhores do que eles. Não há coisa pior do que isso, porque vocês estão dizendo a si mesmos que dê certa forma estão mais pertos de Deus do que os outros, quando na verdade não estão. Se esta é sua atitude, vocês são como o fariseu no templo, que agradeceu a Deus por não ser como aquele outro homem — "esse publicano". O fariseu nunca tinha visto sua necessidade de perdão, e não há pecado mais terrível do que esse. Não sei de nada pior do que um homem que diz: "Saiba que nunca realmente senti que sou um pecador". Esse é o cúmulo do pecado, pois significa que essa pessoa nunca compreendeu a verdade sobre Deus e sobre si mesma. Leiam o argumento do apóstolo Paulo, e perceberão que sua lógica não é apenas inevi­tável, mas também irrespondível. "Não há um justo, nem um sequer". "Sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus". Se nunca reconheceram a pró­pria culpa ou pecaminosidade diante de Deus, nunca vão ter ale­gria em Cristo. É impossível. Jesus não veio salvar justos, e sim pecadores. "Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes". Aí está o primeiro princípio — convicção de pecado. Meu amigo, se você não tem convicção de pecado, e se não reconhece que é indigno diante de Deus, que está condenado e que é um fracasso completo aos olhos de Deus, não preste atenção a mais nada até que tenha isto, até que chegue a essa compreensão, porque você nunca terá alegria, e nunca vai se livrar da sua depressão até que entenda isso. Convicção de pecado é um ponto preliminar essencial a uma verdadeira experiência de salvação.


Isso me traz ao segundo princípio. A segunda coisa que pre­cisamos entender é o caminho da salvação de Deus em Cristo. Esta é a grande boa nova. "Isto é o que eu estou pregando", Paulo diz aos romanos; "essa justiça de Deus que está em Jesus Cristo — Sua justiça". Do que ele está falando? Podemos colo­cá-lo em forma de pergunta. Como você vê Jesus Cristo? Por que Ele veio a este mundo? O que Deus fez em Cristo? Foi Ele apenas um exemplo, ou algo assim? Não vou perder tempo demonstrando a futilidade dessas suposições. Não. Isto é algo positivo, essa justiça de Deus em Jesus Cristo. A salvação está inteiramente em Cristo, e se você não está voltado exclusivamente para Cristo, tudo o mais tendo fracassado, você não é um cristão, e não é de admirar que não seja feliz. "A justiça de Deus em Jesus Cristo" significa que Deus O enviou ao mundo para que Ele honrasse a lei, e para que os homens pudessem ser perdoados. Aqui está Um que prestou obediência perfeita a Deus. Aqui está Um — Deus na carne — que tomou sobre Si mesmo a natureza humana e, como homem, rendeu a Deus perfeita adoração, perfeita lealdade e per­feita obediência. Ele observou a lei de Deus de maneira total e absoluta, sem uma falha. Mas não fez só isso. Paulo acrescenta algo mais nesta declaração clássica da doutrina da expiação: "Ao qual Deus propôs para propiciação pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes come­tidos, sob a paciência de Deus; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e justificador daque­le que tem fé em Jesus". Isto significa que, antes que o homem possa ser reconciliado com Deus, antes que possa conhecer a Deus, esse pecado precisa ser removido. Deus disse que Ele iria punir o pecado, e o castigo do pecado é a morte, como também sepa­ração de Deus. Isso precisa ser resolvido. E o que aconteceu? "Bem", diz Paulo, "Deus o enviou como propiciação". Esse foi o meio que Deus empregou. Significa que Deus fez Cristo respon­sável por nossos pecados. Eles foram colocados sobre Cristo, e Deus tratou deles e os puniu ali, e uma vez que Ele puniu nossos pecado em Cristo, em Seu corpo sobre a cruz, Ele pode nos perdoar com justiça. Como vemos, esta é uma doutrina profunda. É uma declaração arriscada do apóstolo, mas isso precisa ser dito, e vou repetir. Deus, sendo justo, santo e eterno, não podia per­doar o pecado do homem sem castigá-lo. Ele disse que iria puni-lo, então Ele precisa puni-lo* — e, bendito seja o Seu nome, Ele o puniu! Ele é justo, portanto, e o justificador daquele que crê em Jesus. O pecado foi punido, por isso Deus, que é justo e santo, pode perdoar o pecado.


Como, então, isso funciona? Desta maneira: Deus aceita esta justiça de Cristo, esta justiça perfeita face a face com a lei que Ele honrou em todos os aspectos. Ele a guardou e obedeceu e levou seu castigo. A lei foi totalmente satisfeita. Este é o caminho de salvação de Deus, diz Paulo. Ele nos dá a justiça de Cristo. Se vemos a nossa necessidade, e vamos a Deus e a confessamos, Ele nos dá a justiça de Seu próprio Filho. Ele imputa a justiça de Cristo a nós que cremos nEle, e nos considera justos, e nos declara justos nEle. Esse é o caminho da salvação, o caminho cristão de salvação, o caminho de salvação através da justificação pela fé. E se resume nisto: que eu não vejo, nem creio nem olho para nada e ninguém a não ser o Senhor Jesus Cristo. Gosto da ma­neira como Paulo o expressa. Ele pergunta: "Onde está logo a jactância? É excluída. Por qual lei? Das obras? Não; mas pela lei da fé". "Oh, judeus tolos", diz Paulo. "Vocês se gabam do fato que são circuncidados, e que têm os oráculos de Deus, e que são o povo de Deus. Precisam parar com isso. Vocês não podem descansar no fato de que têm esta tradição e que são filhos de Israel. Não há jactância — precisam se basear exclusivamente no Senhor Jesus Cristo e Sua obra perfeita. O judeu não é superior ao gentio neste aspecto. "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus". Olhamos para Cristo, e para Cristo somente, e não para nós mesmos, em nenhum aspecto que seja.


Para tornar isto bem prático, quero dizer que há um meio muito simples de alguém se testar a si mesmo, para saber se realmente crê nisso. Nós nos revelamos por nossas palavras. O Senhor mesmo disse que seríamos justificados por nossas palavras — e como é verdade! Eu já tive que abordar este ponto com muitas pessoas, explicando o caminho da justificação pela fé, mos­trando como é tudo em Cristo, e que Deus nos confere a justiça dEle. E depois de explicar tudo, eu digo: "Vocês entenderam isso? Vocês crêem nisso?" E a resposta é "sim". Então eu digo: "Então estão prontos para dizer que são cristãos?" E eles hesitam. E eu sei então que não entenderam, e pergunto: "O que houve? Por que estão hesitando?" E cada um responde: "Eu não sinto que sou bastante bom". E eu percebo que não entenderam nada. Ainda estão pensando em termos de si mesmos; sua idéia ainda é que precisam ser bons para serem cristãos, precisam ser bons para serem aceitos por Cristo. Eles têm que fazê-lo! "Não sou bastante bom". Parece muito humilde, mas é uma mentira do diabo, e uma negação da fé. Amigo, você acha que está sendo humilde. Mas nunca será suficientemente bom; ninguém jamais foi bastante bom. A essência da salvação cristã é dizer que Ele é suficientemente bom, e eu estou nEle!


Enquanto você continuar pensando em si mesmo, dizendo: "Ah, sim, eu gostaria mas não sou bom o suficiente; sou um pecador, um grande pecador", você está negando a Deus, e nunca vai ser feliz. Vai continuar se sentindo abatido e perturbado em sua alma. Você vai pensar em certas ocasiões que está melhorando, para logo descobrir que não é tão bom quanto pensava. Ao ler as biografias dos santos, você percebe que é um fracasso. Daí fica perguntando: "Que posso fazer? Continuo sentindo que não sou tão bom quanto devia ser". Esqueça-se, esqueça tudo a respeito de si mesmo! É claro que você não é bom o suficiente — e nunca o será! O caminho cristão de salvação lhe diz isto — que não importa o que você foi ou o que fez. Como posso explicar isto com clareza? Tento comunicá-lo do púlpito todo domingo, pois creio que é a coisa que está privando muitas pessoas do gozo do Senhor. Não importa que você tenha ido quase às profun­dezas do inferno, ou se é culpado de homicídio ou qualquer outro pecado vil, não importa quando se trata de justificação perante Deus. Você não é mais perdido do que a pessoa mais respeitável e correta do mundo. Você acredita nisso?


Há um outro meio de se testar a si mesmo. Você crê que com referência à salvação e justificação diante de Deus, todas as nossas habituais distinções são demolidas de uma vez, e que o que determina se somos pecadores ou não, não é o que fizemos, e sim nosso relacionamento com Deus? Eu digo, portanto, que este é o teste — que você reconheça prontamente e declare com firmeza que está olhando para Cristo, e Cristo somente, e a nada e ninguém mais, e que deixe de levar em consideração certos peca­dos e certas pessoas. Não olhe para nada nem para ninguém, a não ser Jesus Cristo, e diga:



Em  nada  ponho  a minha  fé

Senão no sangue de  Jesus.

No sacrifício remidor,

No sangue do meu Redentor.

A minha fé e o meu amor Estão firmados no Senhor.



E você precisa crer de tal forma que possa ir além, decla­rando com santa convicção:

 



Seu juramento é mui leal,

Abriga-me no temporal;

Ao vir cercar-me a tentação,

É Cristo a minha salvação.

 



Você gostaria de se livrar dessa depressão espiritual? A pri­meira coisa que precisa fazer é dizer adeus de uma vez por todas ao seu passado. Compreenda que ele foi coberto e apagado em Cristo. Nunca mais olhe para trás para os seus pecados. Diga: "Está consumado! Eles foram cobertos pelo sangue de Cristo". Esse é o primeiro passo. Tome-o, e acabe com toda essa conversa sobre "ser bom", e olhe para o Senhor Jesus Cristo. Somente então é que verdadeira felicidade e alegria poderão ser suas! Você não precisa decidir viver uma vida melhor, ou começar a jejuar, se esforçar e orar. Não! Diga apenas:

 



Descanso a minha fé nAquele

Que morreu para expiar minhas transgressões.

 



Dê o primeiro passo, e descobrirá que imediatamente vai começar a experimentar uma alegria e uma liberdade que nunca conheceu antes em sua vida. "Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei". Bendito seja o nome de Deus por uma salvação tão maravilhosa para pecadores de­sesperados.

 

 

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