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Vaticano 2
Vaticano 2

AH, ESTES CRIMINOSOS APELIDADOS DE “PAPAS”!

__________

INIQÜIDADES DIVERSAS DA CORTE ROMANA

__________

MORTES, ENVENENAMENTOS, PARRICÍDIOS, ADULTÉRIOS, INCESTOS,

LIBERTINAGENS E TORPEZAS DE DIVERSOS PONTÍFICES ROMANOS

(SÉCULO III AO SÉCULO IX)

__________

(OBS.: Este não é um trabalho completo, mas apenas um Resumo Histórico Parcial,

compilado com algumas modificações da obra de Maurice LaChatr’e: OS CRIMES DOS PAPAS.)

“E veio um dos sete anjos que tinham as sete taças, e falou comigo, dizendo-me: Vem, mostrar-te-ei a condenação da grande prostituta que está assentada sobre muitas águas; Com a qual se postituíram os reis da terra; e os que habitam na terra se embebedaram com o vinho da sua prostituição.” – Apocalipse 17:1-2 (ACF)

1. Prefácio

Melanchton assustou-se com a depuração a ser promovida pela Reforma e indagou a Lutero: Se tiras tudo dos cristãos, o que lhes pretendes dar? Ao que Lutero respondeu sem pestanejar: Cristo.

A primeira vinda do Senhor Jesus Cristo representou tanto para a humanidade que a História foi dividida em duas partes: antes dele e depois dele. O Cristianismo primitivo oficializado pelo governo romano, no entanto, foi perdendo sua pureza inicial na medida em que os homens foram transformando a essência da doutrina Bíblica em massa de manobra para suas conquistas temporais. O aparecimento do Clero romano está cercado de crimes hediondos, desde seu início.

Por volta do ano 150 d.C., começou-se a ensinar que Pedro fora a Roma; em 165 d.C., foi escrito que, com Paulo, ele fundara a Igreja de Roma, afirmações estas totalmente desprovidas de comprovações históricas. A partir do século III, os bispos romanos começaram a se proclamar "chefes da cristandade". Algumas vozes, como a de Cipriano e Jerônimo, levantaram-se contra essa absurda pretensão, mas a força dos ambiciosos foi mais forte. O Império Romano encontrava-se em franca decadência e seria politicamente oportuno reter parte da hegemonia européia que tinham até então por meio de uma liderança religiosa.

O bispo de Roma foi conquistando pouco a pouco essa primazia e, no século III, estabeleceu-se o Papado, fundado em 369 por Graciano. O engodo histórico baseou-se na errônea afirmação do papado de Pedro: “...tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha igreja...” (vide Mateus 16:18), pelas forçadas interpretações de textos bíblicos, apócrifos ambíguos, falsificações e perseguições. O lado humano estava tomando conta da água pura do Evangelho e a doutrina do Cristo sendo conspurcada pelos interesses mundanos do homem.

Concomitantemente, o momento histórico levava a sociedade a organizar-se de maneira feudal. A Igreja, que passa a receber bens e a assumir funções civis, fortalece-se e adquire grande poder temporal, ampliando suas ambições materiais e de dominação política. Com isso, organiza-se internamente, erigindo uma hierarquia todo-poderosa inserida na hierarquia romana. Quando o Imperador desaparece varrido pela fúria bárbara, o Papa de Roma permanece e reivindica a herança imperial, o que o transforma na liderança temporal e espiritual mais forte da Europa Ocidental. O Papado possuía, desde o século V, imensos domínios na Sardenha, na Sicília, em Córsega, no norte da África, no sul da Gália, na Istria, na Dalmácia, na Calábria, no Exarado de Ravena e no centro da Itália. Todas essas propriedades provinham de "doações feitas a ‘São Pedro’ pelos cristãos..." Poderoso proprietário, com um Estado dentro de outro Estado, o Papa opunha-se tenazmente ao Imperador e tinha retaguarda para tal, pois, a um chamado seu, os colonos do "patrimônio de São Pedro" acorreriam de todas as localidades em seu socorro contra o Imperador.

O abismo entre o Cristianismo Bíblico e o de seus pretensos seguidores aumentava. Os deuses de batina erigiram seu Olimpo no Estado vaticano. A história do Vaticano e de seus inquilinos é uma história de trevas. Os alegados pontífices romanos estiveram quase sempre seduzidos pelos hábitos mundanos da espécie, só se distinguindo do restante dos mortais pelo uso da sotaina e pelas prerrogativas eclesiásticas. A rotina do Vaticano, assim como dos mosteiros e outros retiros católicos, mostram os relatos históricos, não se escapava às normas da espécie e da natureza. Ou seja, os seus habitantes não conseguiram represar a gula, tornarem-se celibatários, cultivar as virtudes do Cristo em sua plenitude, cavar masmorras aos vícios, sustentarem-se numa pureza que tentavam impor aos outros e fazer crer aos incautos que também vivenciavam.

Engalanados em seus paramentos vistosos, criaram um Estado Teocrático com tentáculos e influência no mundo todo, arrogando-se em proprietários do espólio da igreja de Cristo, sem perceberem que o verdadeiro tesouro do Senhor Jesus não é material, mas espiritual.

A desfiguração do Cristianismo pelos homens, os enganos, contradições e absurdos praticados pela Igreja e pelos Papas é o que esta obra tenta mostrar. O Olimpo dos deuses de sotaina que encontramos no Vaticano é uma instituição humana como qualquer outra e por isso mesmo carrega todas as características e necessidades da espécie.

Altamente anti-bíblico e mesmo inadmissível é o instituto da infalibili­dade papal. Se algum dia as autoridades vaticânicas descescem de seu pedestal e propuserem um retorno às origens do Cristianismo, algo impossível de acordo com as profecias descritas em Apocalipse, a primeira atitude a ser tomada seria a supressão desse dogma que agride a inteligência do homem. A considerar-se o Papa infalível, como justificar todos os "deslizes" relatados nesta obra histórica e não de ficção?

O que sempre os mandatários da Igreja tentaram impor aos fiéis, inclusive com o uso da força, foi a imagem de que tinham recebido uma legitimidade divina para seus mandatos, o que é um grosseiro erro histórico. E os verdadeiros cristãos que se insurgissem contra essa imposição e discordassem dos "privilegiados" de Roma eram declaradas hereges, esmagados ante o poderio material e policialesco romano e, não raras vezes, exterminadas. O que houvera acontecido em outra época, a aliança entre judeus e romanos em Jerusalém visando ao poder, repetiu-se com a aliança entre os romanos e os “cristãos” para a dominação do mundo.

Como à época os poderes político e militar se fundiam com o “espiritual”, na cabeça do povo, Deus não poderia jamais ser derrotado, daí a submissão e a confiança de que Deus apoiava os desmandos cometidos e o esforço de se manter a promiscuidade entre Estado e Igreja Romana. Afinal, segundo pregavam, o poder material e espiritual unificado levaria também à unificação em Cristo e à salvação da humanidade. Face à ignorância do povo, os valores morais e espirituais também estavam invertidos e quando se esmagava grupos considerados hereges, a razão estava sempre com a Igreja Romana, porque Deus a apoiava e não podia ser derrotado. Este status quo infame perdurou por séculos e mancha a história da Igreja romana. E mesmo hoje, enagana-se quem imagina que algo mudou deste credo romanista.

Ao dirigir-se a Pedro chamando-o de pedra e que sobre ele construiria sua Igreja, a pedra não era Pedro (petros = pedrinha), mas referia-se a si mesmo  (Petra = Rocha), maravilhosa revelação de que ele era o Cristo. Pedro, como apóstolo de Jesus, participou do movimento cristão, mas não fundou a igreja em Roma. Também considerado erroneamente o primeiro Papa, Pedro nunca exerceu essa função em Roma ou em parte alguma! A história muito mal contada e fantasiosa a respeito de Pedro fere o bom-senso e os fatos históricos. Não há nenhuma prova de que Pedro tenha estado em Roma, como já dissemos, e muito menos de que tenha ordenado quem quer que seja. Mesmo por que, seus contemporâneos nunca relataram qualquer palavra dele a esse respeito.

2. RESUMO HISTÓRICO DOS CRIMES PAPAIS ATÉ O SÉCULO IX

O orgulho dos papas e sua ambição in­saciável tinham encontrado nos reis absolutos, auxiliares poderosos e muitas vezes asseclas temíveis, para impor aos povos as suas vontades execráveis, submeter os fracos, argumentar os seus estados, e atingir, finalmente, um tão elevado grau de audácia que se intitulavam os representantes de Deus na Terra e se arrogavam o direito de outorgar reinos, depor príncipes e dividir o mundo.

As trevas da ignorância obscureciam, então, os incautos; os povos, embrutecidos por uma escravidão atroz, dilaceravam-se uns aos outros como animais ferozes, para agradar aos seus tiranos e servirem às suas paixões desregradas.

Séculos de desgraças, de massacres, de incêndios e de fome!

Abusando da credulidade dos povos, os reis derrubavam os impérios por meio de guerras insensatas, e dos campos e cidades faziam um deserto.

Os papas, monstros mais infames e ferozes que os da Antiga Roma e de Bizâncio, assentados na cadeira pontificial, cingidos com o tríplice diadema do orgulho, da hipocrisia, do fanatismo, cercados de assassinos, de envenenadores, de cortesãos, entregavam-se a todas as libertinagens e insultavam as desgraças públicas.

A história! Grande e magnífica lição! Percorre os séculos passados, em que a barbárie sem piedade dos padres, auxiliada pela ignorância dos homens, agitava e perturbava o mundo; em que os habitantes dos campos, rasgados, nus, metiam horror aos próprios bandidos, que nada mais tinham a pilhar senão os cadáveres que jaziam sobre o solo. Recorda as épocas de desastres, de confusão, de isolamento, em que as mais insignificantes herdades e lavouras eram fortificadas pelos ingleses, franceses e romanos, miseráveis a soldo dos reis e dos nobres, encarniçados sobre a sua presa: estavam todos de acordo para pilhar o lavrador, massacrar os povos e, caso admirável, horrível, os próprios animais, habituados ao toque de rebate, sinal da chegada dos soldados, corriam sem condutores para os seus covis.

No reinado de Tibério, apareceu um homem, filho de Maria, chamado o Cristo: as nações estavam sepultadas na ignorância; a lei de Moisés era obscurecida pelas tradições humanas; os costumes dos israelitas e dos outros povos achavam-se em um mesmo grau de corrupção.

Esse homem, extraordinário e todo divino, não se contentou em gemer sobre a sorte do gênero humano; pregou a verdade, ensinou uma moral severa, oposta às máximas corrompidas pelo século.

Os seus discípulos, escolhidos no povo, ensinaram aos homens o que tinham aprendido com aquele que era o Messias, O Filho de DEUS, o Verbo feito Carne, DeUS encarnado: o Evangelho Eterno, Seus sábios preceitos, uma moral santa e rígida, uma doutrina eterna, espiritual, a salvação para todo aquele que Crê.

Os discípulos do Cristo não empregaram a força para fazer receber os seus preceitos; pelo contrário, foram perseguidos de todos os modos, e as suas prédicas, acompanhadas de bons exemplos, fizeram os mais rápidos progressos.

O homem Deus foi perseguido com um furor igual ao zelo que ele testemunhava contra o vício, continuou a sua missão divina passando por um suplício infame. Mas não ficou em seu túmulo! Ressuscitou ao terceiro dia. Subiu ao céu, assentando-se à destra de DEUS o Pai. Enviou o Espírto Santo à terra, a Igreja é fundada.

Os primeiros cristãos distinguiam-se pelo nome de irmãos, de santos, de fiéis; eram humildes, obscuros, pobres, ganhando subsistência com o trabalho dos braços..

Espalharam-se secretamente pela Grécia; alguns foram a Roma, misturados entre os judeus, a quem os romanos haviam permitido o exercício do seu culto numa sinagoga.

Foi no ano 60 da nossa era que os cristãos começaram a separar-se da comunhão judaica: chamaram sobre si violentas querelas das sinagogas espalhadas em Roma, na Grécia, no Egito e na Ásia; foram acusados de ateísmo pelos seus irmãos judeus, que os excomungaram três vezes no dia de sábado.

Formaram-se muitas igrejas locais, e a separação tornou-se completa entre os israelitas e os cristãos. No primeiro século, os apóstolos e os seus sucessores ocultavam-se nas catacumbas de Roma, errando pelas aldeias e cavernas; os alegados papas não tinham ainda trono episcopal, não caminhavam sobre as cabeças dos reis, não abalavam ainda os impérios.

As esmolas dos neófitos tornaram muito lucrativo o trono dos bispos das grandes cidades; o seu crédito estendeu-se na razão das suas riquezas; a sua insolência, a sua audácia argumentaram na mesma proporção, e o seu poder formidável pairou sobre a decepção dos povos.

Mas, declarando-se os cristãos inimigos de todas as religiões, e sobretudo da religião do império, foram punidos repetidas vezes pelas leis; nasceu daí o grande número de mártires com que os padres de Roma povoaram as suas lendas.

Os imperadores viram com desprezo, e algumas vezes com indignação, os progressos daquela nova religião que elevava o seu culto sobre as ruínas dos deuses do império.

Galério convenceu Diocleciano de que aquela seita que ele protegia estava eivada de fanatismo e furor. O imperador publicou um edito para a destruição da basílica de Nicomédia; um deles rasgou em pedaços o edito de Dio­cleciano; procedeu-se a informações, encontraram-se as provas de uma conspiração surda que se estendia de uma extremidade a outra do império: Antioquia, Jerusalém, Cesaréia, Alexandria estavam cheias desses intolerantes inovadores; o foco dessa grande lava estava em Roma, na Itália, na África e na Ásia Maior; mais de 200 desses perturbadores foram condenados à morte.

Chegamos à época em que Constantino colocou o “cristianismo” no trono; desde então, viram-se os “cristãos” romanos, animados por um zelo furioso, perseguirem-se sem misericórdia, suscitarem as mais extravagantes querelas, obrigarem pelo fogo e pelo ferro os pagãos a abraçarem o Cristianismo.

Constâncio Chloro tinha uma concubina que era “cristã”, mãe de Constantino e conhecida sob o nome de Helena. César Constâncio Chloro morreu em York, na Inglaterra, em um tempo em que os filhos que ele tinha da filha de Maximiliano Hércu­les, sua esposa legítima, não podiam pretender ao império; Constantino, filho da concubina, fez-se eleger imperador por cinco ou seis mil soldados alemães, gauleses e ingleses.

Aquela eleição, feita por soldados sem o consentimento do senado e do povo romano, foi consagrada pela sua vitória sobre Mavença, eleito imperador em Roma, e Constantino subiu a um trono manchado de crimes.

Parricida execrável, mandou degolar os dois Licínios, marido e filho de sua irmã; não poupou sequer os seus próprios filhos, e por sua ordem foi sufocada num banho a imperatriz Fausta, mulher desse monstro.

Em seguida, consultou os sacerdotes do império, a fim de saber que sacrifícios poderia ele oferecer aos deuses para expiar os seus crimes. Os sacrificadores rejeitaram as suas ofertas, e ele foi repelido com horror pelo hierofante, cuja voz gritava: "Longe daqui os parricidas, a quem os deuses não perdoam nunca."

Então um sacerdote prometeu-lhe o perdão de seus crimes, purificando-o nas águas do batismo, e o imperador “fez-se” cristão.

Saindo logo de Roma, fundou a sua nova capital de Constantinopla. No seu reinado, os ministros da religião “cristã” começam a mostrar a sua ambição, que haviam sabido ocultar por três séculos; certos da impunidade, precipitam a mulher de Mavença no Oronte, degolam os seus parentes. Massacram magistrados no Egito, na Palestina; arrancam do seu retiro a viúva e a filha de Diocleciano e lançam-nas ao mar.

Constantino reúne o concílio de Nicéia, exila Ário, torna a chamá-lo, bane Atanásio e morre nos braços de Eusébio, chefe dos ários, tendo-se feito batizar tão-somente no leito da morte, para escapar dos tormentos do inferno.

Constâncio, filho e sucessor de Constantino, imitou todas as suas barbáries; reuniu como ele concílios que se prescreveram, se anatematizaram. Atanásio sustentou o seu partido na Europa e na Ásia pela astúcia e pelas violências; os ários abateram-­no; os exílios, as prisões, os tumultos, os assassínios assinalaram o fim do reinado abominável de Constâncio.

Joviano e Valentiano deram ambos liberdade inteira de consciência; os partidos aproveitaram-se disso para satisfazer os seus ódios e dar largas à sua raiva sem piedade.

Teodósio declara-se pelo concílio de Nicéia; a imperatriz Justina, que reinava na Ilíria, na África, como tutora do jovem Valentiano, exila-o.

Os godos, os vândalos, os burguinhões, os francos caem sobre as províncias do império, encontram aí estabelecidas as opiniões de Ário, e os vencedores abraçam a religião dos vencidos.

O papa Atanásio acalma com a sua justiça e tolerância as questões religiosas que dividiam as igrejas do Oriente e do Ocidente, mas o ódio dos padres terminou em breve por um crime, uma existência que teria sido gloriosa para a religião e cara à humanidade!

Maomé aparece no sétimo século; impostor hábil, funda uma religião nova e o maior império do mundo. Banido de Meca, reúne os seus discípulos, estabelece os fundamentos da sua teogonia e caminha para as conquistas mais surpreendentes.

Os cristãos estavam divididos por heresias grosseiras; os persas faziam uma guerra terrível ao império do Oriente; os judeus e os católicos perseguiam-na com um ódio implacável; tudo era confusão na Igreja e no Estado.

Os bispos não se arrogavam ainda uma jurisdição temporal; mas a fraqueza do império do Ocidente fez nascer essa usurpação escandalosa, que encheu a Europa de fogueiras, de desastres e de ruínas.

Pepino, rei da França, liga-se sucessivamente aos papas Zacarias e Estevão; para encobrir aos olhos dos povos a sua usurpação da coroa da França e o assassínio de seu irmão, abandona à Santa Sede os domínios da România, tirados aos lombardos.

Estevão III, padre hipócrita, não tarda em assinalar o seu novo poder, com os excessos da mais desenfreada ambição.

No tempo de Estevão VI, o furor chega ao seu maior auge; o clero divide-se em facções: e o papa é eleito no meio da carnagem: o pontífice, depois da sua vitória, manda arrancar os olhos e a língua de Constantino II, seu predecessor.

Carlos Magno invade a Lombardia, apodera-se da herança de seus sobrinhos, despoja o sogro para o punir por ter tomado a sua defesa, manda-o arrastar até Lyon, carregado de ferros, e condena-o a terminar os seus dias numa prisão.

Então Leão III colocou uma coroa de ouro na cabeça e cobriu os ombros com um manto de púrpura.

Mas os descendentes de Carlos Magno não puderam conservar em Roma a influência que aquele usurpador adquirira concedendo aos papas as terras que tirara aos lom­bardos.

Paschoal I, por uma audácia criminosa, mandou arrancar os olhos e cortar a cabeça, no palácio patriarcal de Latrão, a Teodoro, primicério da Igreja romana, e a Leão, seu genro, por terem permanecido fiéis a Lotário; por ocasião da morte do papa, o povo opõe-se a que ele seja inumado e quer arrastar o seu cadáver pelas ruas de Roma.

Eugênio, seu sucessor, ocupa-se em fazer transportar dos sepulcros da Itália ossadas petrificadas, restos horrendos da natureza humana; envia-os para a França, para a Alemanha, para a Inglaterra e vende­-os à Europa cristã.

Sérgio faz publicamente um tráfico vergonhoso com todos os cargos da Igreja.

Leão IV tem a imprudência de assegurar aos bispos a impunidade dos crimes mais enormes.

Depois da morte de Leão, uma mulher sobe ao sólio de S. Pedro, celebrando missa, criando bispos, dando os pés a beijar aos príncipes e aos povos; a papisa Joana aparece grávida de um cardeal e morre com as dores do parto, no meio de uma cerimônia religiosa.

No nono século, separam-se os gregos e os latinos, disputas ridículas são causa de quinze séculos de assassínios e carnagens, de guerras atrozes, e vinte e nove cismas sanguinolentos vêm manchar no Ocidente o sólio de Roma.

Os árabes e os turcos avassalam a Igreja grega e a Igreja da África, e vêm elevar a religião maometana sobre os fragmentos do Cristianismo.

A Igreja romana permanece em discórdias e ruínas; durante esse período de anarquia, os bispos e os abades, na Alemanha, fazem-se todos príncipes, e os papas atingem o domínio absoluto em Roma.

Estevão VII, impelido por uma raiva sem tréguas, ordena que se tire do túmulo o cadáver de Formose e, coisa horrível, manda conduzi-lo a um sínodo reunido para o desagradar. Então aquele corpo horrendo, vestido com os hábitos pontificiais, é interrogado no meio dos maiores escândalos e clamores: "Por que razão, sendo bispo de Port, usurpaste, tu, por espírito de ambição, a sede universal de Roma?..."

Em seguida, o papa, impelido por uma barbárie execrável, manda despojá-lo dos hábitos sacerdotais, ordena que lhe cortem três dedos e a cabeça, e que lancem o cadáver ao Tigre.

Sérgio invade a cadeira pontificial; leva publicamente uma vida manchada de devassidão com a famosa cortesã Marósia; seu filho chega a papa sob o nome de João XII, e excede-o ainda pelos seus crimes monstruosos; os cardeais e os bispos acusaram-­no de incesto com sua mãe, de violação das virgens sagradas, de adultério, de homicídio, de profanação e de blasfêmia.

Gregório V manda cortar os pés, as mãos, a língua e as orelhas de João e de Crescêncio, e os faz passear assim mutilados pelas ruas de Roma.

Bento IX é elevado à Santa Sede na idade de 12 anos, pelas intrigas e pelo ouro do conde de Toscanelle, e; em breve, entrega-­se aos excessos da depravação e aos deboches mais vergonhosos. Os romanos, cansados dos seus atentados, expulsam-no de Roma e nomeiam um outro papa, Silvestre III. Bento, com o auxílio dos seus parentes, apodera-se de novo da Santa Sede, mas, vendo-se o objeto da execração universal e pressagiando uma queda terrível, vende a Santa Sede por uma infame simonia e consagra um terceiro papa, chamado João XX.

Em seguida, retira-se do palácio de seu pai para se entregar às mais infames voluptuosidades.

Depois de ter feito aquele tráfico odioso, o desejo de mandar invade-lhe de novo a alma e lança-o pela terceira vez àquele sólio desonrado; só contra os romanos que o tinham em horror; só contra os dois outros papas, operando um tríplice cisma, propõe aos seus adversários repartirem entre si as rendas da Igreja.

Esses três anti-papas, por um escândalo atroz, dividem em três porções o patrimônio dos pobres e tomam assento com audácia, um em S. Pedro , outro em Santa Maria Maior , e o terceiro no palácio de Latrão.

Execrável triunvirato!!!

Um pobre astucioso, avaro e dissoluto compra dos três papas os seus títulos infames ao papado e sucede-lhes sob o nome de Gregório VI.

Hildebrando, esse monge de Cluny, esse envenenador de papas, o mais velhaco dos padres, usurpa a cadeira pontifícia sob o nome de Gregório VII; lança anátemas sobre os reis, excita guerras públicas, enche a Alemanha e a Itália de fogueiras, de carnagens, de assassínios; excomunga o imperador da Alemanha, rouba-lhe o título de rei, desliga os povos do juramento de obediência, subleva os príncipes e os reduz, afinal, a um infortúnio por tal modo atroz que as faculdades de sua alma sofrem um violento abalo. Então, excesso de orgulho e de degradação, o rei veio procurar o papa na "força do inverno, em jejum, descalço, em camisa, com umas tesouras e uma vassoura na mão!!!"

Adriano, filho de um mendigo inglês, manda que o imperador Barba-roxa lhe segure no estribo, e, para juntar ao seu triunfo barbaridade, exige que o famoso Arnaldo de Brescia lhe seja entregue para ser queimado vivo, pelo fato de ter pregado contra o luxo dos padres e a abominação dos pontífices.

Alexandre leva mais longe que os seus predecessores os ultrajes para com os reis; o imperador Frederico, para libertar o seu filho Othon, prisioneiro dos romanos, manda pedir ao papa que o absolva da excomunhão. O inflexível Alexandre ordena que o imperador venha em pessoa pedir-lhe perdão na presença de todo o povo reunido, sem manto, sem coroa, com uma vara de bedel na mão, e se prostre com as faces sobre a terra. Quando o viu diante do pórtico da igreja, Alexandre pôs-lhe o pé no pescoço e pisou-lhe exclamando: "Tu pisarás a áspide e o basilisco e esmagarás o leão e o dragão!"

Celestino III dá um exemplo horrível de uma avareza insaciável; Alexandre pisará aos pés Frederico Barba-roxa, que reclamava a liberdade de seu filho; esse novo papa, a troco de ouro, coroa o imperador Henrique IV, ministro abominável, que renovou o ímpio sacrilégio de Estevão VII, mandando exumar o cadáver de Tancredo, para lhe fazer cortar a cabeça pela mão do algoz; ordenou que arrancassem os olhos ao jovem Guilherme, filho de Tancredo, depois de o ter feito eunuco; condenou o conde Jordão a um suplício horrível, mandando-o prender nu numa cadeira de ferro em brasa e coroar com um círculo de ferro inflamado que lhe pregaram na cabeça.

Inocêncio III mandou pregar cruzadas contra os infiéis, aumentou os seus tesouros com riquezas dos povos e tratou com Saladino para que este não entregasse os lugares santos ao imperador da Alemanha.

Esse papa, embusteiro e sacrílego, estabeleceu o tribunal monstruoso da inquisição, pregou em seguida uma cruzada contra os albigenses, despojou dos seus estados Raimundo VI, conde de Toulouse, e mandou S. Domingos, munido de poderes, para perseguir pelo ferro e pelo fogo e por tormentos inauditos os desgraçados Vandezes. Os cruzados apoderaram-se da cidade de Beziers. O atroz Domingos, com o Cristo em uma das mãos e um archote na outra, excitava a carnagem, e sessenta mil cadáveres foram sepultados sob as ruínas daquela cidade reduzida a cinzas. Toulou­se, Carcassona, Alby, Castelnaudary, Nar­bonna, Saint-Gilles, Arles, Marselha, Aix, Avignon foram devastadas pelos exércitos do papa.

Raimundo, levado à presença de um legado, despido até a cintura e descalço, foi açoitado com varas e puxado por uma corda de roda do túmulo de um frade fanático que fora massacrado pelo povo.

Gregório IX, para sustentar a sua ambição e o luxo desenfreado da sua corte, levanta impostos na França, na Inglaterra, na Alemanha; excomunga os reis; subleva os povos e faz com que os seus súditos o expulsem de Roma.

Raimundo VII, católico, mas filho de um herege, é perseguido e despojado dos seus estados; o papa envia um legado à França para sustentar essa guerra abominável do Languedoc e da Provença; Raimundo defende-se com coragem; os povos, cansados da avidez insaciável de Gregório IX, recusam-se a pagar os impostos e obrigam o papa a concluir a paz.

O pontífice, interrompido na sua marcha, condena Raimundo a pagar dez mil marcos de prata ao seu legado, dois mil à abadia de Citeaux, mil à de Grand-Selve, trezentos à de Belle-Perche, tudo pela remissão dos seus pecados, como atesta o tratado assinado em frente do pórtico da catedral de Pávia.

Inocêncio IV, no meio dos seus crimes, pratica uma ação generosa que consola a humanidade; toma a defesa dos judeus da Alemanha, que os príncipes e os padres perseguiam para se apoderarem dos seus despojos.

Nesse século de barbárie, o falso zelo da religião servia de pretexto às injustiças mais revoltantes; inventavam-se calúnias contra os judeus, acusavam-nos de festejarem a Páscoa comendo o coração de uma criança recém-nascida, e, quando se encontrava o corpo de um homem morto, era-lhe aplicada a tortura, e condenavam-nos a morrer pelos mais atrozes tormentos.

Urbano IV assina um tratado vergonhoso com S. Luiz e Carlos d'Anjou, para se apoderar do reino de Nápoles e partilhar os estados do jovem Conradino. O papa destrói os escrúpulos do rei da França e faz jurar ao duque d'Anjou que abandonará à Santa Sede os domínios sobre os quais tinha pretensões, pagando-lhe oito mil onças de ouro por ano.

Clemente IV continua a política do seu predecessor; o jovem Conradino entra de novo nos seus estados, dá uma batalha decisiva e é feito prisioneiro com Frederico da Áustria. Depois de um duro cativeiro, Carlos d'Anjou, por ordem do papa, condena-os a morrer às mãos do algoz. O jovem duque da Áustria foi o primeiro a ser executado; Conradino pegou na cabeça do seu amigo e recebeu o golpe mortal abraçado a ela.

Martinho IV sobe à cadeira de S. Pedro e faz um acordo sacrílego com Carlos d'Anjou, um tirano político, usurpador, da Sicília; o outro, tirano sagrado de Roma.

As suas crueldades promovem a indignação geral; forma-se uma vasta conspiração cuja alma é João de Procida, gentil-ho­mem de Salerno; este excita Miguel Paleólogo a reunir-se a ele; dirige-se à Espanha para trazer consigo Pedro de Aragão e percorre as cidades da Sicília para incitar os espíritos à vingança.

No terceiro dia da Páscoa Católica de 1282, à hora de vésperas, é dado o sinal da carnificina, e ao som dos sinos reúne-se um grito de morte em todas as cidades da Sicília. Os franceses são massacrados nas igrejas, nas praças públicas, nas casas; por toda a parte, os assassinos, a vingança e dez mil cadáveres são os sanguinolentos troféus das vésperas sicilianas.

Bonifácio VIII é feito papa depois de ter mandado assassinar o seu predecessor; ultraja os povos, arrosta com os reis, persegue com encarniçamento os gibelinos, partidários do imperador da Alemanha, inventa o jubileu para fazer entrar nos seus tesouros as riquezas das nações e promove um ódio tão profundo que os estados reúnem­-se em Paris, por ordem de Filipe, o Belo, para julgar o papa. O arcebispo de Narbonna acusou-o de ser simoníaco, assassino, usurário, de não acreditar na eucaristia nem na imortalidade da alma; de empregar a violência para que lhe revelassem os segredos da confissão; de viver em concubinagem com as suas duas sobrinhas e de ter tido filhos delas; finalmente, de ter empregado o dinheiro das indulgências para pagar aos sarracenos a invasão da Sicília.

Nogaret e Sciarra Colonna são encarregados de levar ao papa a ordem de se dirigir a Lyon, para ser julgado por um concílio geral, e chegam, à frente de trezentos cavalos, à cidade de Anagui, residência de Bonifácio; encontrando resistência, forçam o palácio e apresentam ao papa o ato de acusação. Bonifácio, cego de furor, cobre de injúrias Nogaret e amaldiçoa o rei da França e seus descendentes até a quarta geração.

Então, Sciarra Colonna, com o seu guante de ferro, fere-o no rosto até fazer saltar o sangue.

Clemente V e Filipe, o Belo, acusam os templários de crimes enormes e condenam-­nos ao mais atroz suplício, para se apoderarem das suas imensas riquezas. Por ordem do rei, o grão-mestre dos templários, acompanhado dos seus cavaleiros, é conduzido ao suplício para ser queimado vivo na presença dos cardeais e dos padres, que contemplam sem terror aqueles postes inflamados e tintos de sangue.

Depois de ter partilhado com o rei da França os despojos dos templários, Clemente V estabeleceu a sua corte em Avinhão, entregando-se publicamente aos excessos mais depravados com seu sobrinho e a filha do conde de Foix. Em seguida, prega uma nova cruzada contra os turcos, vende as indulgências e, juntando o ridículo à infâmia, concede a cada cruzado o direito de resgatar quatro almas do purgatório!!! E os povos estiveram curvados durante mil e oitocentos anos ao jugo desses papas criminosos!

João XXII apodera-se da tiara, senta-se no trono pontificial e diz: "Sou papa". Para consolidar essa usurpação, fulmina anátemas contra o imperador da Alemanha e o rei da França, persegue as seitas, queima os hereges, subleva os povos, arma os príncipes, inunda os reinos com os seus frades, prega novas cruzadas, rouba os benefícios e amontoa nos seus tesouros 25 milhões de florins, extorquidos de todas as partes do mundo cristão.

Bento XII suspende as depredações, revoga os impostos com que o seu predecessor carrega os povos, pratica uma moral severa, reforma o clero e morre no meio dos seus trabalhos apostólicos.

Clemente VI compra à célebre Joana de Nápoles o condado de Avinhão, mediante 300 mil florins de ouro que não pagou nunca, e declara inocente do assassínio de André seu marido, que ela mandara matar.

Sob Urbano VI começa o maior cisma que desolou o Ocidente. Sobem à cadeira pontificial dois papas: Urbano VI em Roma, e Clemente VII, antipapa, em Avinhão. Durante 50 anos, os dois pontífices e seus sucessores excitam guerras cruéis e excomungam-se reciprocamente. Urbano tem pelo seu lado a Itália, Nápoles, a Hungria e a Espanha; a França sustenta Clemente VII; por toda parte praticam-se os maiores vandalismos e crueldades, ou por ordem de Clemente VII ou pelo fanatismo de Urbano.

A infeliz e culpada Joana envia 40 mil ducados ao papa para sustentar o seu partido, e Urbano, em prova de reconhecimento, manda-a estrangular ao pé dos altares. O pontífice levará Carlos de Duras, filho adotivo de Joana e herdeiros dos seus estados, a cometer aquele admirável parricídio.

Tendo este príncipe recusado partilhar com o papa os despojos de Joana, o furor de Urbano voltou-se contra seis cardeais, que ele suspeitava de favorecerem o partido de Carlos de Duras; fê-los descer, carregados de cadeias, a uns fossos imundos e fétidos; mandou-lhes arrancar os olhos, as unhas dos pés e das mãos, quebrar os dentes, rasgar as carnes com ferros em brasas, e aqueles corpos atrozmente mutilados e palpitantes ainda foram metidos em sacos de couro e lançados ao mar.

Clemente VII ocupava o sólio de Avinhão, levantava impostos enormes sobre as igrejas da França, para enriquecer os cardeais e satisfazer o luxo desenfreado de sua corte; o seu procedimento não cedia em coisa alguma ao do seu competidor, pelo lado das violências, das fraudes e dos crimes.

Os dois papas assolavam a Europa com os seus exércitos e com os dos seus partidários: o furor apagara todos os sentimentos de humanidade; as traições, os envenenamentos, os massacres invadiam tudo. Procuravam-se remédios para estas calamidades públicas, mas os dois papas opunham-­se a todas as combinações que podiam trazer como resultado a paz para a Igreja.

O cisma continuou com os seus sucessores; os cardeais, não podendo vencer a obstinação dos dois papas, reuniram um concílio em Pisa e citaram Bento XIII e Gregório XII a comparecer a ele; e, como eles se recusaram a anuir a isso, o patriarca da Alexandria, auxiliado pelos de Antioquia e de Jerusalém, pronunciou em alta voz, na basílica, com as portas abertas e na presença do povo reunido, a sentença definitiva de deposição contra os dois papas.

Alexandre V, que empreende firmar a união da Igreja, reformar os costumes do clero, confiar a homens virtuosos os cargos sagrados, morre em conseqüência de um clister envenenado, administrado por ordem do cardeal Balthasar Cossa; esse assassino infame faz reunir o conclave e, apoderando-se do manto pontificial, cobre com ele os homens, exclamando: "Sou papa."

Os cardeais, assustados, confirmam a eleição de João XXIII, mas os papas depostos, Bento XIII e Gregório XII, fazem reviver as suas pretensões ao sólio de Roma; uma guerra horrível, excitada pelos anátemas, cobre de sangue a Prússia e a Itália; o império tem três imperadores, assim como a Igreja tem três papas, ou antes, Roma e o império acham-se sem chefes.

Reúne-se um concílio geral e procede­-se à deposição do papa João XXIII. Os bispos e os cardeais acusam-no de assassínios, de incestos, de envenenamentos, de sodomia; de ter subornado e entretido um comércio sacrílego com 300 religiosas, de ter violado três irmãs e feito encarcerar uma família inteira para abusar da mãe, do pai e do filho.

Martinho V manda queimar vivo João Hus e Jerônimo de Pragam, chefes de uma nova seita, que pregavam contra as desordens dos padres e a ambição dos pontífices e chamavam os homens para os sentimentos de humanidade. Organiza, em seguida, uma cruzada para submeter a Boêmia; mas os habitantes daqueles países selvagens, exaltados pelos princípios generosos da liberdade, lutam com coragem contra o fanatismo. São enviados embaixadores a Praga para fazer propostas de paz, e a Boêmia responde "que um povo livre não precisa de rei".

Os legados do papa e o imperador comandam em pessoa os seus exércitos para obrigarem os hussitas a não comungarem sob as duas espécies de pão e vinho. Demência atroz!!! Por um motivo tão pueril, a Alemanha é entregue aos horrores da guerra civil! Mas a causa dos povos triunfa, as tropas do imperador são batidas em muitos encontros e o exército dos legados é completamente derrotado.

Eugênio IV sobe à cadeira pontificial; confirma o cardeal Juliano Cesareo na sua legação na Alemanha, para exercer contra os hussitas as mais cruéis perseguições. No seu reinado, passa-se um fato de suma gravidade, estabelece-se uma luta entre os poderes da Igreja. O concílio de Bale quer submeter os papas, e o papa declara que a sua cadeira é superior aos concílios.

Os padres publicam um decreto terrível, declarando Eugênio IV prevaricador, incorrigível, escandalizando a Igreja e depondo-o do pontificado.

Felix V é nomeado. Eugênio toma-se antipapa; os concílios de Florença e de Bale excomungam-se reciprocamente; sucedem­-se as deposições, as violências, as crueldades. Vitteleleschi, arcebispo de Florença, é assassinado por ordem de Eugênio; os reinos dividem-se, tomam partido por um ou por outro, e renovam um cisma que durou até a morte de Eugênio.

No pontificado de Nicolau V teve lugar a tomada memorável de Constantinopla pelos turcos; o pontífice, solicitado pelos embaixadores gregos para Ihes conceder alguns socorros de homens e de dinheiro, recusa com dureza, e devemos atribuir a perda daquela poderosa cidade à perfídia da corte romana, que sacrificou o baluarte da cristandade e traiu covardemente um povo que devia socorrer.

O mérito e a santidade de Calixto III elevam-no ao trono pontificial, que ele honra pelo seu gênio.

Sixto IV emprega todos os seus cuidados, toda a sua solicitude, em aumentar as suas riquezas; multiplica os impostos, inventa novos cargos, vende-os em leilão para saciar a avidez de Pedro Rière de Savona e de Jerônimo, seu irmão de criação; cardeais, os quais coadjuvavam os seus prazeres infames.

Esse horrível papa estabeleceu em Roma um lupanar nobre onde as cortesãs lhe pagavam todas as semanas em júlio (moeda itálica) de ouro. Esse rendimento anual excedia a 20 mil ducados. E, coisa abominável que basta para tornar eternamente odiosa a memória de Sixto IV, tendo a família do cardeal de Santa Lúcia apresentado-lhe um requerimento para que lhe fosse permitido exercer o ato de sodomia durante os três meses mais quentes do ano, o papa escreveu embaixo no requerimento: "Conceda­-se a licença pedida."

Em seguida, dirige uma conjuração contra Lourenço e Juliano de Médici, envia Rafael Rière à Florença, e, durante uma missa solene, no momento em que o cardeal elevava a hóstia, os conjurados apunhalam Juliano de Médici. Lourenço defende-se com coragem e, apesar de ferido, consegue alcançar a sacristia. O povo precipita-se sobre os conjurados, desarma-os e, na sua justiça, enforca-os nas janelas da igreja, bem como Salviati, arcebispo de Pisa, em hábitos pontificais.

Inocêncio VIII sucede a Sixto; a sua eleição custa-lhe em propriedades, em benefiícios e em ducados de ouro mais do que os tesouros da Santa Sede; os recursos estavam esgotados, mas restava ainda o gênio dos papas. Estabeleceu cinqüenta e dois bulistas, que encarregou de oprimir e vexar os povos, e juntou-lhes 26 secretários que lhe granjearam cada um dois mil e quinhentos marcos de ouro.

A sua vida particular foi manchada com os mais vergonhosos escândalos; educado entre a gente do rei Afonso de Sicília, contraíra os vícios repugnantes da sodomia. A sua beleza notável fizera-o admitir em Roma na família de Filipe, cardeal de Bolonha, para servir a prazeres monstruosos. Pela morte de seu protetor, tornou-se o valido de Palo II e de Sixto, que o elevaram ao cardinalato.

O grão-mestre de Rhodes entrega ao papa Inocêncio o jovem príncipe Zizime, para o subtrair às perseguições de seu irmão Bojazet.

O sultão do Egito envia embaixadores para oferecer ao papa 400 mil ducados e a cidade de Jerusalém, em troca do príncipe Zizime, que ele quer pôr à testa das suas tropas para marchar à conquista de Contantinopla, e obriga-se a entregar essa cidade aos cristãos; mas o sultão Bojazet pagou um resgate maior, e o pontífice conservou Zizime prisioneiro nos seus estados.

Entramos agora no reino de um papa que, na opinião de todos os historiadores, é o mais espantoso dos homens que tem aterado o mundo. Uma depravação até então desconhecida, uma cupidez insaciável, uma ambição desenfreada, uma crueldade mais que bárbara, tais eram as qualidades de Rodrigo Bórgia, eleito papa sob o nome de Alexandre VI.

As suas paixões eram tão desregradas que, tendo-se enamorado de uma viúva que tinha duas filhas, não contente em gostar da mãe, fazia com que as filhas se prestassem à brutalidade dos seus desejos. Meteu uma das irmãs num convento e continuou os seus incestos com a mais formosa, que se chamava Rosa Vanozza.

Deu-lhe ela cinco filhos, dos quais um deles foi o famoso César Bórgia, que teria ultrapassado os crimes de seu pai, se o pró­prio demônio os pudesse ter igualado.

No pontificado de Inocêncio, os assassinos e os bandidos tinham aumentado por tal modo que os cardeais, antes de entrarem no conclave, foram obrigados .a guarnecer com mosqueteiros os seus palácios e a colocar peças de artilharia em todas as avenidas.

Roma tornara-se um mercado público, no qual se expunham à venda todos os cargos sagrados. Rodrigo Bórgia comprou publicamente os sufrágios de 22 cardeais e foi proclamado papa.

Armado com o poder sacerdotal, os seus vícios execráveis apresentaram-se publicamente; entregou-se aos incestos mais monstruosos e, coisa horrível, os dois irmãos Francisco e César, e Lucrécia Bórgia, sua irmã, confundiam-se com aquele que lhes dera o ser as suas infames voluptuosidades!

A ambição imoderada do papa não conhece limites; todas as leis divinas e humanas são pisadas aos pés; forma e rompe alianças; prega cruzadas; levanta impostos sobre os reinos cristãos; inunda a Europa com as suas legiões de frades; apodera-se das riquezas que eles lhe produzem e chama Bojazet à Itália, para o opor ao rei de França.

Mais tarde, a sua política fê-lo procurar o apoio de Carlos VIII, e, protegido pelos franceses, empreende a ruína dos pequenos soberanos da România, manda apunhalar uns, envenena outros, lança o terror nos espíritos e prepara para César Bórgia a dominação absoluta da Itália.

A sua insaciável avareza inventava, para se enriquecer, os meios mais sacrílegos; vendia os cargos sagrados, os altares, o Cristo, e retomava-os em seguida para os vender uma segunda vez.

Nomeou o cardeal de Modena distribuidor das graças e dispensas: sob o nome daquele ministro de iniqüidade, vendia as honras, as dignidades, os casamentos, os divórcios; e, como a simonia do cardeal não produzia somas assaz consideráveis para sustentar o fausto da família de Alexandre, administrou-lhe o funesto veneno dos Bórgias, para se apoderar das imensas riquezas que ele tinha amontoadas.

Fazia promoções de cardeais recebendo os emolumentos; depois, declarando a Santa Sede herdeira dos bens dos prelados, envenenava-os para se enriquecer com os seus despojos. Contudo, não lhe fornecendo todos esses crimes riquezas suficientes, o papa fez publicar que os turcos ameaçavam invadir a cristandade e, sob a capa da religião, extorquiu somas de tal modo enormes e fabulosas, que ultrapassam toda e qualquer suposição.

Afinal, Alexandre VII, manchado de assassínios, de deboches e de incestos monstruosos, tendo convidado a cear na quinta de César Bórgia dois cardeais de quem ele queria herdar, bebeu o veneno que lhes estava destinado e entregou ao demônio a sua alma abominável.

Os povos, cansados do jugo insuportável dos bispos de Roma, arruinados pela avidez insaciável dos padres, começam a despertar do sono letárgico em que estavam sepultados.

Lutero, frade da ordem dos Agostinhos, sai do retiro, levanta-se contra Leão X e o vergonhoso escândalo das indulgências; arrasta os povos e os reis à sua nova doutrina, eleva-se com todo o poder do seu gênio e arranca da tirania dos papas metade da Europa.

Clemente VII, com as suas perfídias, excita a cólera do imperador Carlos V. Roma é entregue à pilhagem durante dois meses, as casas são saqueadas e as mulheres são violadas. O exército do rei católico pratica maiores atrocidades do que os tiranos pagãos haviam inventado durante trezentos anos contra os cristãos. Os infelizes romanos eram pendurados pelos pés, queimados, feitos em pedaços, para os obrigarem a pagar resgate, e expostos finalmente aos suplícios mais espantosos para expiarem os crimes do seu pontífice.

Os católicos e os protestantes enchem a Alemanha de incêndios, de assassinatos e de ruínas.

A missa é abolida juridicamente em Strasburgo.

Paulo II obtivera o barrete de cardeal entregando Júlia Farnese ao monstro Alexandre VI; eleito papa, envenenou sua mãe para se apoderar da sua sucessão e, juntando um duplo incesto a um segundo parricídio, mandou matar uma das suas irmãs, com ciúmes dos seus outros amantes; envenenou Bosesforce, marido de Constância, sua filha, que ele tinha já corrompido com sua dissolução horrível. Em seguida, aumenta o seu encarniçamento contra os desgraçados luteranos.

Seus sobrinhos tomaram-se os executores das suas crueldades e ousaram gabar-se publicamente de terem feito correr rios de sangue, onde os cavalos podiam nadar. Durante essas carnificinas, o papa entregava-se às suas monstruosas voluptuosidades com Constância, sua filha.

No seu reinado, Inácio de Loyola funda a ordem dos jesuítas.

Calvino, espírito sublime, faz ouvir a sua voz poderosa e continua os progressos das reformas religiosas.

Júlio III fulmina anátemas contra os luteranos, fê-los perecer em cruéis suplícios e, juntando a depravação à crueldade, eleva ao cardinalato um mancebo encarregado na sua casa do duplicado emprego de guardar um macaco e prestar-se aos vergonhosos prazeres do papa.

Paulo IV excita o furor do rei da França contra os protestantes, forma uma liga abominável pela sua destruição e devasta a Europa inteira. Pela sua morte, o povo de Roma, emancipado daquele jugo atroz, arromba os cárceres da inquisição, larga fogo às prisões, derruba a estátua do papa, quebra-lhe a cabeça e a mão direita, arrasta-a três dias pelas ruas de Roma e lança-a ao Tigre!

Pio IV termina o Concílio de Trento, e esse grave acontecimento não produz sensação alguma nos povos.

O pontífice quer suspender a decadência da Santa Sede; desperta o fanatismo de Carlos IX e da Filipe da Espanha e reúne aqueles dois príncipes em Boyonna para tratar dos meios de exterminar os calvinistas.

Os princípios do pontificado de Gregório XIII foram assinalados pelo mais horrível de todos os crimes, o massacre de São Bartolomeu, conspiração abominável tramada pelos conselhos da Espanha e pelas sugestões de Pio IV.

As perseguições, as fogueiras, as guerras tinham aumentado prodigiosamente o número dos calvinistas. Catarina de Médici, essa cruel e infame Jezebel, não podendo exterminá-los pela força, recorreu à perfídia; Carlos IX, habituado às crueldades, violento até o furor, adaptou os desígnios criminosos de sua mãe, e o massacre geral dos protestantes foi irrevogavelmente decidido.

À meia-noite, véspera da São Bartolomeu, o relógio do palácio dá o sinal. Saint-­Germain I'Auxerrois toca a rebate, e, ao som lúgubre dos sinos, os soldados invadem as casas dos protestantes, degolando nos seus leitos as crianças e os velhos; apoderam-se das mulheres e, depois de as haver ultrajado, abrem-lhes as entranhas, tiram delas as crianças meio formadas, arrancam-lhes o coração e, com uma ferocidade sem dó, rasgam-nos com os dentes e os devoram.

Coisa quase inacreditável, tão horrível é a ação; esse Carlos IX, esse rei abominado por todos os séculos, armado de um arcabuz, disparava das janelas do Louvre sobre os desgraçados que se salvavam a nado.

Aquela janela ficou como um monumento eterno da barbárie dos reis!

Gregório XIII felicitou Carlos IX pelo maravilhoso resultado da empresa.

Pela morte do papa, o cardeal de Mon­talto entra no conclave, velho, alquebrado, encostado a um bordão. As ambições dos cardeais reúnem os sufrágios sobre aquele ancião que parece tão próximo da morte; ocorre o escrutínio e, quando é já conhecida metade do número dos votos, sem esperar pela conclusão, Montalto atira fora a muleta, endireita o corpo que era de elevada estatura e entoa o Te-Deum, com voz tão forte e vibrante, que retumbou pela abóbada da capela.

Foi feito papa sob o nome de Sixto V; hipócrita e inflexível, liga-se secretamente com a rainha Isabel e fulmina anátemas sobre o seu reino; em seguida, excomunga o rei de Navarra e o príncipe de Condé para reanimar na França os furores do fanatismo.

Clemente VIII renova as cenas de orgulho dos seus predecessores; quer obrigar Henrique IV, rei da França, a vir em pessoa, descalço, reconhecer que ele cingia a coroa do papa; mas os embaixadores foram admitidos a comparecer pelo rei, e essa cerimônia aviltante teve lugar, em presença do povo, na igreja de S. Pedro, em Roma.

Gregório XV excita Luiz XIII a perseguir os protestantes, continua com as guerras contra a Boêmia e, não podendo converter os habitantes de Genebra, ordena ao duque de Sabóia que os extermine.

No tempo de Urbano VI, o célebre Galileu, esse ancião que levara setenta anos a estudar os segredos da natureza, é arrastado ao tribunal da Inquisição, condenado, lançado em uma masmorra e obrigado a retratar-se.

Clemente IX, de um espírito elevado, de um saber prodigioso, anima as artes, recompensa os sábios e cerca o trono pontifi­cal com todas as ilustrações do seu século.

Diminui os impostos e emprega os seus tesouros socorrendo os venezianos e a ilha de Cândia contra os infiéis; suprime as ordens que oprimiam os povos que, sob a capa de um zelo piedoso, entregavam-se à preguiça e a uma vida desordenada.

Por sua eloqüência e moderação, serenou as intermináveis contendas dos janse­nistas com os molinistas, e soube fazer parar a ambição desregrada de Luiz XIV, que desolava a Europa com guerras desastrosas.

As intrigas dos jesuítas entregam aos tur­cos a ilha de Cândia; esse pontífice genero­so, ferido no coração pela traição daqueles padres indignos, fulmina-os com o anáte­ma, e morre depois de um reinado de três anos.

A “Santa Sede” não fora ocupada nunca por um homem mais virtuoso que Clemen­te IX; repousa o espírito dessa lon­ga série de crimes que nos oferece a história dos papas.

Sob Inocêncio XI, reanimam-se as per­seguições contra os luteranos e os calvinistas; os templos são demolidos, as cidades destruídas, degolados dezoito mi­lhões de franceses, e os protestantes são expulsos do reino.

Inocêncio XI, do mesmo modo que Gre­gório XIII procedera em São Bartolomeu , dirige ao rei da França as suas felicitações e, em sua honra, ordena que em Roma te­nham lugar regozijos públicos.

O reinado de Clemente XI é agitado pe­las questões religiosas; os jesuítas são acu­sados de fazerem prestar na China, a Confúcio, o mesmo culto que a Jesus Cris­to. O papa envia a Pequim o cardeal Tour­non, encarregado de reformar aquela idola­tria criminosa. Esse virtuoso prelado, víti­ma do seu zelo, morre no meio das cruéis perseguições que lhe suscitam os jesuítas.

Essa terrível congregação, propagada pelo papa, estende o seu odioso poder por sobre os reinos e inspira o terror a todos os povos.

Inocêncio XI publica a famosa bula Unigenitus, que promove a indignação ge­ral, e continuam as questões religiosas até a morte do papa.

Bento XIII quer renovar o escândalo daquela bula de desordem; mas a filosofia começa a fazer progressos, e as suas preten­sões, que noutro tempo teriam feito derramar torrentes de sangue, inspiram unica­mente o desprezo.

A moderação de Bento XIV repara os males ocasionados pelos seus predecessores; põe termo às questões religiosas, repele os jesuítas, modera a bula Unigenitus e faz ces­sar as agitações que afligiam a França.

Clemente XIII não imita as virtudes e a moderação do seu predecessor; protege abertamente os jesuítas, fulmina anátemas e, pela sua audácia, prepara a ruína da San­ta Sede.

Os excessos dos jesuítas tinham cansa­do os povos; os seus crimes e a sua ambi­ção assustavam os reis; o ódio universal faz explosões, e os jesuítas são expulsos da França.

Na Europa, na Ásia, na América, são ba­nidos dos estados do rei da Espanha, ex­pulsos das duas Sicílias, de Parma, de Mal­ta; aquela ordem, em execração à humani­dade, é exterminada em quase todos os paí­ses que haviam sido os teatros do seu po­der: nas Filipinas, no Peru, no México, no Paraguai, no Brasil.

A França tira ao papa Avinhão, como pertencendo à coroa.

Pelo seu lado, o rei de Nápoles apodera­-se da cidade de Benevente e da de Ponte-­Corvo.

Proscreve-se por toda a parte a famosa bula In cana Domini, monumento de de­mência e de orgulho com que os papas fulminavam Roma todos os anos desde Pau­lo III.

As trevas pontificiais começaram a dis­sipar-se; os príncipes e os povos deixaram de prostrar-se aos pés do servo dos servos de Deus.

Clemente XIII vê o velho colosso de Roma cair em ruínas e morre de pesar por não poder demorar-lhe a queda.

Clemente XIV faz subir a filosofia à ca­deira dos papas; por um momento, conser­va o poder fantástico da Santa Sede; o seu caráter e a sua moderação entregam-lhe de novo os poderes que o fanatismo absurdo do seu predecessor tinha afastado.

Portugal rompera com a sede de Roma e queria eleger um patriarca; as cortes da Fran­ça, da Espanha e de Nápoles estavam in­dignadas com a excomunhão ridícula de Clemente XIV contra o duque de Parma; Veneza pretendia reformar, sem o concurso do papa, as comunidades religiosas que em­pobreciam a nação.

A Polônia queria diminuir a autoridade da Santa Sede e parecia lembrar-se de ter sido a senhora do mundo.

Clemente, por uma política hábil, por uma prudência e sabedoria consumadas, suspende esse movimento; mas os padres inimigos da tolerância não perdoaram o pontífice e este morreu envenenado.

Já a liberdade, esse facho de razão, der­ramava a sua luz por todos os espíritos, e os homens começavam a abalar as algemas vergonhosas da superstição.

Nas massas manifestava-se uma inquie­tação universal, presságio feliz das revolu­ções morais.

Pio VI pretende reassumir o poder temi­do dos pontífices de Roma, e continua a política abomínável dos seus predecesso­res.

O imperador da Áustria, José II, fez pa­rar a propagação dos conventos que amea­çavam invadir o seu reino. Suprime os bis­pados, fecha os seminários e protege os seus estados contra a dominação da Santa Sede.

O grão-duque da Toscana prepara as mesmas reformas, dissolve as confrarias, abate a autoridade dos núncios e proíbe que se dirijam a Roma para o julgamento dos padres.

Em Nápoles, um ministro filósofo tira a avareza dos papas, as indulgências, a colação dos benefícios, a nomeação para os curatos vacantes. Recusa o tributo de uma hacanéia branca, ricamente ajaezada, com ferraduras de prata, acompanhada de uma bolsa com seus mil ducados, tributo vergo­nhoso que a nação pagava ao pontífice.

O soberano aprova a política do seu ministro; proíbe a entrada das bulas nos seus estados, ordena aos bispos que conce­dam as dispensas que se compravam a Roma, tira aos papas a nomeação de bispos nas duas Sicílias e expulsa do reino o internúncio.

Prepara-se a Revolução Francesa; os es­tados gerais em Versalhes ordenam refor­mas no clero, abolem os votos monásticos e proclamam a liberdade de consciência.

O papa excita perturbações sanguiná­rias em Avinhão para ligá-Ia à Santa Sede; as duas pretensões são repelidas pela as­sembléia nacional, que proclama solenemente a anexação daquela cidade à França.

A Itália é conquistada pelos exércitos franceses; Pio VI, covarde e hipócrita, men­diga a aliança da república.

Mas a justiça de uma grande nação é inflexível; o assassinato do general Duphot pede uma reparação solene; o pontífice é arrancado de Roma e levado para a fortale­za de Valença, onde termina a sua carreira envilecida pela infâmia e pela perfídia.

O conclave reúne-se em Veneza; depois de 104 dias de intrigas e de seduções, o beneditino Chiaramonte é eleito papa sob o nome de Pio VII.

O pontífice forma uma aliança com a república e assina a famosa concordata.

Começa uma nova era para os destinos da França; a república cede lugar ao impé­rio e Napoleão sobe ao trono.

O papa é obrigado a ir a Paris para sagrar o imperador e aumentar a magnificência daquela cerimônia imponente.

A fraqueza de caráter de Pio VII entre­ga-o, sem defesa, às conjurações que o ódio do clero trama com os inimigos do impera­dor.

Napoleão, indignado com as maquina­ções surdas dirigidas contra o seu poder pelos conselheiros do papa, publica um decreto mudando o governo de Roma, es­tabelecendo a anexação dos estados da Igreja ao império e destituindo da autoridade temporal o soberano pontífice.

A velha audácia do clero sobreviveu às revoluções; Pedro VII lança mão dos raios do Vaticano.

A bula de excomunhão é afixada de noi­te nas ruas de Roma; nela, chama-se o povo à revolta, incita-se à carnagem e designam­-se os franceses à vingança pública; mas Roma, livre do jugo sacerdotal, é surda ao apelo do fanatismo; rasga-se o estandarte de S. Pedro, e, em todos os monumentos romanos, tremulam as brilhantes cores da França.

As guerras sucedem-se na Europa; os reinos são conquistados; desmoronam-se as velhas governanças. A França está em toda a majestade da sua glória.

Mas Napoleão eleva novos tronos e cai sob os golpes dos que ele coroou.

Essa catástrofe terrível muda os desti­nos das nações e restitui ao papa a herança de S. Pedro.

Pio VII faz a sua entrada triunfal em Roma; abrem-se os templos, ressoam as ações de graças para celebrar a escravidão dos povos e o Santo Padre morre rodeado dos seus cardeais, nas pompas e na magnificência do poder.

Depois dele, três papas ocupam a cadei­ra de S. Pedro, mas a sua passagem silencio­sa não marca nenhum período saliente na história das nações.

Os pontífices orgulhosos que lançavam o anátema sobre os reinos, davam ou tira­vam impérios e oprimiam os povos com o jugo do fanatismo e do terror, agora, escra­vos da Áustria, escravos dos opressores da Itália, mendigam vilmente a proteção dos reis para esmagar os romanos e manter na cabeça a tiara pontifícia.

Povos da Itália, saí do vosso sono letár­gico! Contemplai o capitólio! Lembrai-vos da antiga Roma e dos seus gloriosos desti­nos!... Movam-se as vossas legiões, e as sombras dos grandes homens marcharão à sua frente para a conquista da liberdade!

A história dos papas, cercada do seu lú­gubre cortejo de assassínios, de envenena­mento, de torturas, de incestos e de parricídios, atravessou dois mil anos de despotismo.

A história dos reis desenrolará os mes­mos séculos de crimes e atentados.

Depois do Vaticano, o Louvre; a França depois de Roma; e os seus orgulhosos se­nhores, quer lhes cinjam a frente a tiara dos papas ou a coroa dos reis, esmagarão os povos com o peso de uma dupla tirania.

A França, nação gloriosa e magnífica, cuja voz potente fez ouvir ao mundo intei­ro estas verdades sublimes: "Os direitos do homem! A liberdade dos povos!" A França atravessou dezoito séculos envolta nas tre­vas da ignorância, esmagada sob um cetro de ferro, curvada em admiração estúpida diante dos padres e diante dos reis.

Os gauleses são, em primeiro lugar, es­cravizados pelos druidas, cujo culto bárba­ro ordenava que se queimassem as crianças nas cinzas dos vimes, sobre o altar do seu deus Theutates.

Em seguida, vêm as cortes romanas, sob as ordens de César, invadir as Gálias.

Por seu turno, os vândalos penetram nas províncias romanas e reduzem à escravidão os povos espalhados desde Viena até as margens do Sena.

Faramundo, à testa das hordes bárbaras vindas da Germânia, destrói os vândalos e funda a dominação dos francos.

Seu filho, Clódio, o Cabeludo, prosse­gue nas suas conquistas sobre os romanos.

Clóvis expulsa-os completamente das Gálias, volta as armas contra aqueles que o tinham auxiliado nas suas guerras, apode­ra-se de Amiens e manda assassinar Chararic; invade Metz, manda trazer à sua presença Sigeberto, o seu mais fiel aliado, amarrado de pés e mãos, esmaga-lhe o crâ­nio com sua massa de armas.

Em seguida, Clóvis faz-se cristão para firmar uma monarquia que tomou temível pelas traições e pelos assassinatos.

Os reis, seus sucessores, descendentes de Meroveo, de Carlos Magno ou de Capeto, mostrar-se-ão os dignos herdeiros dos seus estados e dos seus crimes.

Clotário I persegue um dos seus filhos rebeldes, surpreende-o com a mulher e duas filhas na casa de um aldeão, manda fechar todas as saídas, larga fogo à casa, e aquele monstro regozija-se com o espetáculo hor­rível das chamas que devoram seus filhos.

Sigeberto, rei da Austrália, desposa Bru­nehaut; Fredegonda começa a reinar sobre Chilperico, rei de França; essas duas mu­lheres abomináveis, rivalizando em crimes e atentados, entregam o reino a guerras es­pantosas.

Fredegonda manda assassinar Sigeber­to; Brunehaut seduz o filho de Chilperico e arma-o contra o pai.

O rei de França, furioso contra aquela aliança, manda degolar o filho e envolve na sua vingança o seu segundo filho e sua mãe.

Fredegonda estrangula com um lençol a nova esposa de Chilperico e manda assassiná-lo pelo seu amante.

Brunehaut impele os filhos a uma guer­ra contra Fredegonda, e 20 mil franceses perecem nessa contenda atroz.

Para conservar a sua autoridade, excita, em seguida, os dois irmãos um contra o outro, protege os deboches de Thierry, or­denando-lhe que assassine o irmão, e enve­nena-o em seguida.

Os povos, cansados com os crimes da­quela mulher abominável, entregam-na a Clotário II; esse príncipe, digno daquele século bárbaro, expõe por três dias Brune­haut inteiramente nua aos ultrajes dos sol­dados e manda atá-Ia à cauda de um cavalo indomado que a arrasta pelas rochas e flo­restas.

Contudo, os padres, enriquecidos com as liberalidades de Brunehaut, recolheram preciosamente as cinzas da fogueira que consumiu o seu cadáver, encerraram-nas numa uma que foi depositada na abadia de S. Martinho, e o papa S. Gregório, que lhe prodigalizara as lisonjas mais servis, fez dela quase uma santa.

Dagoberto I, covarde, devoto, hipócri­ta, arrasta atrás de si um bando de cortesãs, expulsa os judeus do reino, edifica igrejas, funda mosteiros e passa à posteridade car­regado com o desprezo de todos os séculos.

Clóvis II, primeiro rei ocioso, abando­na a autoridade aos administradores do pa­lácio, para se entregar à voluptuosidade nos braços das suas amantes.

Os seus sucessores, ocultos nos seus pa­lácios suntuosos, cercados das suas favori­tas, deixam de aparecer nas assembléias dos estados ou à frente dos seus exércitos; os administradores do palácio são os sobera­nos da nação, e o rei é mostrado ao povo, uma só vez no ano, num carro enfeitado de flores e puxado por bois.

Pepino, administrador do palácio, pre­para o trono para a ambição da sua família; lisonjeia o clero, enriquece os conventos, acaricia o povo, diminui os impostos, cha­ma a si um partido formidável e morre deixando um filho mais poderoso que um rei.

Carlos Martel segue a mesma política que seu pai; reúne os grandes da nação e faz-se proclamar príncipe dos franceses.

Alcança uma vitória deslumbrante so­bre Abdarama: 400 mil sarracenos são es­magados nas planícies de Tours e o cres­cente é repelido para os lados da Espanha.

Pepino, seu filho, apodera-se do trono, manda rapar as barbas a Chilperico IV e encerra num claustro o último rei dessa raça da Merovea, que durante trezentos anos enchera a França de desastres.

Carlos Magno sucede a Pepino, seu pai; grande legislador, dá à França as suas ca­pitulares; administrador hábil, organiza o seu vasto império, estabelece juízes nas províncias e funda academias abertas a todas as ciências. Contudo, a ambição tor­na Carlos Magno usurpado r e parricida; o seu fanatismo lança-o em guerras cruéis contra os saxões, os sarracenos e os lom­bardos, e o reinado de Carlos, o Grande, é assinalado por 33 anos de massacres e de carnagem.

As leis de Carlos Magno são esquecidas depois de sua morte, os estabelecimentos que ele fundara desaparecem, os sábios que ele chamara para ilustrar o seu reinado são banidos do reino, e o povo sepulta-se em novas trevas.

Luiz, o Benigno, rei fraco e devoto, mais frade do que rei, enceta o singular desmo­ronamento do império.

Apodera-se dos estados de Bernardo, seu sobrinho, rei da Itália, e divide-os pelos três filhos da sua primeira mulher.

Judith, a mais formosa e a mais nova das donzelas da corte, torna-se a segunda mulher de Luiz; a sua ambição iguala-se à sua impudicidade; quer elevar ao império Carlos, seu bastardo; os filhos de Luiz re­voltam-se, reúnem um concílio e depõem seu pai.

As agitações domésticas, os ódios, as perfi dias sucedem-se, e Luiz morre deixan­do o reino dividido entre os seus quatro filhos.

Carlos, o Calvo, filho de Judith, é feito rei da França e renova os escândalos de sua mãe. A formosa Richilda, sua concubina, sobe ao trono, espalha por toda parte os in­cêndios, as pilhagens, os assassínios, as li­bertinagens e, afinal, manda envenenar o marido por Boson, seu irmão e seu amante.

Os sucessores de Carlos preparam a ruí­na e a decadência daquela segunda raça. Luiz, o Gago, reina dois anos, deixa dois bastardos e a rainha grávida, motivo de agi­tação e anarquia.

Carlos, o Gordo, rei da Baviera, é cha­mado ao império pelos sufrágios dos esta­dos.

No seu reinado, os homens do norte, saí­dos dos gelos da Escandinávia, irrompem na França, sitiando Paris, e obrigam Carlos a pagar-Ihes um tributo e abandonar-Ihes o saque das províncias.

Os povos indignados expulsam-no do trono, e o rei da França acha-se reduzido a um tal estado de abandono e de pobreza, que não lhe resta um único retiro para es­conder a sua queda espantosa.

Carlos, o Simples, empunha as rédeas do reino; a sua promessa anima a audácia dos grandes vassalos da coroa; o conde Roberto hasteia o estandarte da revolta e organiza uma batalha na qual é morto. Seu genro, Herberto, conde de Vennandois, apo­dera-se, por traição, da pessoa do rei e obri­ga Carlos, o Simples, a abdicar, colocando a coroa na cabeça de Raul.

Depois da morte desse usurpador, o fi­lho de Carlos, o Simples, é chamado à Fran­ça pelos estados e reina sob o nome de Luiz d'Ultramar.

As mesmas perfídias e crueldades assi­nalam o reinado de Luiz IV; este quer apo­derar-se dos estados do duque da Norman­dia, e ele próprio fica prisioneiro dos seus inimigos.

Hugo Capeto liberta-o, sacrificando a Bretanha. O rei, em reconhecimento, atrai a uma cilada o conde de Vermandois, cunha­do de Hugo, e manda enforcá-Io para o cas­tigo do cativeiro do seu pai.

Mas a vingança dos Capetos será terrí­vel! Hugo seduz Emina, mulher de Lotário, obriga-a a envenenar o marido e o filho, e a raça dos carlovíngios extingue-se com aque­le duplo parricídio.

Hugo Capeto recolhe aquela herança sanguinária, reúne os estados, faz-se pro­clamar rei dos franceses e torna-se o funda­dor da raça dos capetos.

Para afirmar a sua usurpação, sacrifica a nação à sua política, divide o reino com os grandes vassalos, cria os ducados, os con­dados, as baronias, os marquesados, todo esse monstruoso governo feudal que esma­gou a França durante setecentos anos.

Sucede-lhe Roberto, o Piedoso, que edifica igrejas, enriquece os conventos e entrega ao clero os despojos dos desgraça­dos povos.

O papa Gregório V excomunga aquele rei beato, declara interdito o reino, faz inter­romper o serviço divino, ordena aos padres que recusem os sacramentos aos vivos e a sepultura aos mortos até que Roberto tenha repudiado Bertha, sua primeira mulher.

Filipe I sobe ao trono; com o seu reina­do começam as guerras da França com a In­glaterra: uma disputa frívola entre os filhos do duque da Normandia e de Filipe torna­-se a origem dessas guerras de extermínio, desses ódios implacáveis, dessas discórdias gerais e insensatas que impeliram as duas nações a rivalizar em massacres, incêndios e devastações.

Os papas abalam os impérios e come­çam a elevar as suas audaciosas pretensões sobre as coroas dos reis.

As cruzadas são publicadas, e três mi­lhões de homens marcham para a conquista da terra santa, guiados por Pedro, o Eremita.

No meio daquela confusão, os frades, os cônegos, os cartuxos, os jacobinos, os beneditinos, os agostinhos, os domínicos brancos e pretos, os carmelitas calçados e descalços, multiplicam-se ao infinito e de­voram a substância dos povos.

Sob Luiz VI, os tiranos do feudalismo arrogam-se toda a espécie de direitos, rou­bam as jovens desposadas e entregam a Fran­ça às mais espantosas desgraças. As provín­cias armam-se contra as províncias, as cida­des contra as cidades, os castelos contra os castelos, e os senhores promovem entre si guerras de extermínio.

Luiz VII toma parte nessas guerras, mar­cha contra Thibault, conde de Champagne, apodera-se de Vitri, faz massacrar os habi­tantes e, para tornar mais brilhante a sua vitória, depois de ter mandado murar as portas de um templo onde se tinham refu­giado as mulheres, as crianças e os velhos daquela desditosa cidade, manda-lhe lan­çar fogo, e mil e quinhentos cadáveres fi­cam sepultados debaixo daquelas ruínas ar­dentes.

Aquele rei devoto, para expiar o seu cri­me, manda edificar conventos, enriquece os frades e empreende uma nova cruzada.

O procedimento repreensível de Leonor, sua mulher, os seus amores incestuosos com Raimundo, seu tio, as suas orgias com um jovem turco, levam a desordem ao campo dos cruzados.

Luiz VII rapta sua mulher e faz regressar à França os fragmentos tristes do seu exér­cito.

Filipe Augusto expulsa os judeus do rei­no, vende-Ihes o direito de tornarem a en­trar nele e expulsa-os de novo.

Alia-se a Ricardo da Inglaterra para a conquista da Terra Santa e renova os desas­tres de seu pai.

Filipe, excitado pelo papa Inocêncio m, ordena as cruzadas contra os albigenses; o horrível Dominico, acompanhado pelos le­gados do papa, dirigia as execuções; os ca­tólicos, em nome da religião, cometem os crimes mais odiosos, os incêndios, os as­sassínios, e entregam-se a deboches ímpios sobre os cadáveres das mulheres que dego­laram.

S. Luiz sobe ao trono; fraco e devoto, abandona o reino para conquistar a Terra Santa. Os sarracenos fazem-no prisioneiro, e Paris paga oito mil libras de ouro pelo resgate do rei.

De volta à França, ocupa-se da administração do reino, faz justiça aos povos e pu­blica essas famosas ordenanças, mistura de sabedoria e de fanatismo, reunião bizarra de justiça e de crueldade.

Condena os blasfemadores a terem a lín­gua furada com um ferro em brasa e os lá­bios queimados; ordena aos seus oficiais que persigam sem tréguas os hereges, quei­mando-os sem misericórdia.

Os judeus são declarados infames e en­tregues como escravos aos senhores; e a lei acrescenta que os cristãos convencidos de terem entretido relações criminosas com uma judia seriam queimados vivos, porque, segundo a ordenança do rei, "manchar-se com uma judia era um crime igual ao de bestialidade".

O irmão de S. Luiz, Carlos d'Anjou, é chamado à Itália por Inocêncio IV para se apoderar do reino de Nápoles; vencedor por traição do jovem Conradino, manda-lhe cortar a cabeça, e, para cúmulo da cruelda­de, o desditoso Henrique, filho do rei de Castela, é encerrado numa gaiola de ferro e passeado por todas as cidades de Pouilla e de Benevente.

Luiz XI cede ainda ao fanatismo dos padres; empreende novas cruzadas, chega à África, apodera-se de Cartago e morre de peste debaixo dos muros de Túnis.

Filipe, o Belo, por uma perfídia infame, apodera-se da jovem filha do conde de Flandres, para romper o seu casamento com o filho do rei da Inglaterra; uma segunda traição torna-o senhor do conde de Flandres e de seus filhos, que tinham vindo sob a salvaguarda real suplicar a Filipe que lhes entregasse a jovem princesa.

Os flamengos, indignados, armam-se para vingar a violação do direitos das gen­tes; um tecelão e um cortador são os tribunos que conduzem o povo, e quarenta mil fran­ceses são degolados nas planícies de Courtrai.

Os povos, extenuados pelas guerras, não podem aumentar mais os seus tesouros: Fi­lipe rouba a nação, diminui o valor da moe­da e torna-se o primeiro falso moedeiro coroado.

Não satisfeita ainda a sua avareza, so­bem os templários às fogueiras para deixar ao rei as imensas riquezas da sua ordem.

No tempo de Carlos IV, as libertinagens de Margarida de Borgonha, de Joana, sua irmã, e da rainha Branca tornam célebre para sempre a famosa torre de Nesle.

Filipe e Gauthier d'Aulnay, seus aman­tes, surpreendidos em adultério com aque­las princesas, são condenados a serem esfo­lados vivos e arrastados por um cavalo sel­vagem por sobre a relva de um prado recen­temente cortada.

Os Valois sobem ao trono, e a lei sálica é proclamada na França.

Filipe de Valois, imperioso e cruel, de­clara guerra aos flamengos e à Inglaterra; a sua armada é destruída, e 30 mil franceses encontram sepultura nos abismos do mar.

O exército de terra é inteiramente ani­quilado na funesta batalha de Créqui.

No meio dos desastres públicos, o rei da França e a sua corte suntuosa exigem ouro para continuar o luxo das festas e das libertinagens.

A miséria do povo é sacrificada à avare­za dos arrematantes dos impostos; os subsí­dios são duplicados; uma lei nova diminui mais ainda a moeda, e o atroz imposto do sal vem aumentar a infãmia daquele reina­do.

João perde a batalha de Poitiers, é feito prisioneiro do rei da Inglaterra e o seu resgate custa à França três milhões de escudos de ouro e as suas mais belas províncias.

Sucede-lhe Carlos V. Algoz dos povos por uma longa série de guerras que podia evitar, assaz hipócrita para ocultar a sua avidez e as suas exações, bastante hábil para deslumbrar a nação com o brilho das suas vitórias, assaz astuto para parecer um ho­mem de gênio, e assaz político, finalmen­te, para se fazer armar, pisando aos pés a nação, Carlos V passou à posteridade com o título de Sábio.

Mas o massacre de Montpellier deixou na história uma página ensanguentada con­tra a realeza, e os povos ficaram assustados com o império que concediam a um só ho­mem. ­

Os habitantes de Montpellier tinham-se revoltado contra a gente do rei, que viola­va os seus privilégios na percepção dos im­postos.

Oitenta oficiais ou exatores foram mor­tos pelo povo; o rei Carlos, o Sábio, para vingar os executores da sua tirania, enviou contra a cidade um exército comandado pelo duque de Berri, seu irmão.

Quando o príncipe chegou às portas de Montpellier, os habitantes, os cônsules, as dignidades da Igreja, vieram ao seu encon­tro com uma corda ao pescoço, o fato rasga­do, derramando copiosas lágrimas, e entre­garam-lhe as chaves pedindo misericórdia.

Aquele tigre, em execração à humani­dade, manda levantar um cadafalso na pra­ça e profere uma sentença pela qual, com autoridade do rei, declara: "abolidos os pri­vilégios da cidade, bem como o consulado, as arcas comuns e a universidade; tirados os sinos; destruídas as muralhas; e ordena que mais de 600 habitantes, escolhidos à discrição, serão condenados à morte, a sa­ber: 200 decapitados, 200 enforcados, e 200 queimados".

Tudo isso foi executado por ordem do muito alto e muito poderoso senhor Carlos, o Sábio, rei da França!

No reino de Carlos VI, os povos agitam­-se e reclamam a diminuição dos impostos; então o rei, para extinguir as revoltas, man­da cercar com tropas numerosas a cidade de Paris, desarma os cidadãos, proíbe as assem­bléias, manda que se apoderem dos burgue­ses nas suas próprias casas e, como havia falta de algozes, aquelas desgraçadas víti­mas eram metidas em sacos e lançadas ao Sena.

Os direitos foram aumentados, a cidade de Paris arruinada e a contribuição dos mes­mos impostos foi renovada até cinco vezes no ano.

O casamento do rei com Isabel da Baviera exige ainda maiores somas, e Paris, cercada pelos soldados de Carlos VI, vem depor aos pés da rainha 60 mil coroas de ouro.

Nas cidades, os povos desgraçados mor­riam aos mílhares no limiar dos palácios; as mulheres e as crianças, sem asilo, permane­ciam expostos ao rigor do inverno.

Nos campos, a soldadesca desenfreada devastava as colheitas e massacrava os la­vradores quando ousavam queixar-se.

Mas a rainha Isabel passava os dias e as noites em festas, no meio das danças, das refeições suntuosas, entregue a todas as las­cívias.

O rei Carlos enlouquece; os povos em­brutecidos, considerando a sua pessoa como inviolável e sagrada, respeitam aquele fan­tasma da realeza e abandonam à Isabel as rédeas do governo. No tempo dessa regên­cia, os espantos e males desolam a nação; sucedem-se guerras civis; os armanhões e os borguinhões excedem-se uns aos outros em perfídia, infâmia e assassinatos.

A essas calamidades vieram juntar-se dois flagelos: a avareza insaciável dos pa­pas, que oprimiam o reino para lhe arrancar os últimos fragmentos, e uma epidemia, causada pelos calores excessivos e pelo grande número de mortos amontoados no cemitérios de Paris. Entre as duas festas da Virgem, cem mil habitantes tinham pereci­do vítimas daquele contágio fatal.

Carlos VI morre. O reino passa para o domínio dos ingleses, e o delfim, despojado dos seus estados, esquece a França nas festas e nos prazeres.

Uma jovem camponesa, Joana d'Arc, apresenta-se a Carlos VII, reanima a energia do príncipe, marcha à frente do exército e conduz o rei vitorioso a Reims, onde é sagrado com toda a solenidade.

Luiz XI sucede a seu pai, que se deixara morrer de fome com receio de ser envene­nado por esse monstro. Luiz XI! O seu nome basta para trazer à memória a crueldade de um tirano embusteiro e supersticioso.

Em breve, o seu caráter implacável mos­tra-se em toda a sua nudez: os cobradores dos impostos praticam exações em Reims e ocasionam um levantamento. Para punir o povo rebelde, o rei introduz na cidade um bando de assassinos: cem burgueses são pre­sos nas suas próprias casas e perdem a vida no cadafalso.

Seu irmão Carlos morre envenenado; o conde d'Armagnac é massacrado por sua ordem, depois de ter rompido uma hóstia com o cardeal d' Arras; o condestável de S. Paulo é condenado à morte por um julga­mento iníquo; o duque de Nemours é en­cerrado na Bastilha, numa gaiola de ferro e, em seguida, condenado a ter a cabeça cor­tada na praça de Greve. No dia da execu­ção, seus filhos trajando umas largas opas brancas, foram colocados debaixo do cada­falso, e inundados com o sangue de seu pai.

Prosseguindo na sua vingança contra aqueles desditosos filhos, mandou-os encer­rar em cárceres de dimensões acanhadíssi­mas, para que não tivessem repouso algum, e tirava-os dali duas vezes por semana, para serem açoitados, e, de três em três meses, mandava-Ihes arrancar um dente.

Covarde e hipócrita, Luiz XI trazia no chapéu uma virgem de chumbo, diante da qual se prostrava para obter o perdão dos crimes que ia cometer. Mais de 4 mil pes­soas pereceram por sua ordem. No seu reinado, não se via em tomo das habitações reais senão forcas, rodas e cadafalsos.

Finalmente, aquele monstro coroado expirou no meio dos terrores e dos tormen­tos.

Luiz XI ocupa o primeiro lugar nos anais dos tiranos; déspota algum apresenta um composto de qualidades tão singulares. Respirando unicamente a vingança, mas sabendo demorá-Ia para a tornar mais cruel; ávido de dinheiro, e sabendo prodigalizá­-lo para fazer vingar os seus projetos; bárba­ro e acariciando os seus inimigos para os surpreender desarmados; desconfiado em extremo e afetando indiferença quando que­ria obter um segredo; covarde, devoto e muitas vezes intrépido na ação.

Todos os atos de sua vida foram as rami­ficações da sua perfídia e mostram o quanto ele era eminente nas combinações tortuosas dessa arte abominável que se cha­ma política.

Luiz XII, o pai do povo, anula os privi­légios da universidade de Paris, introduz na cidade um grande número de soldados para abafar as queixas da burguesia e do povo, realiza uma aliança com o horrível Alexandre VII, esse Bórgia manchado com todos os crimes, e obtém dele a autorização para repudiar a desditosa Joana.

Esse rei deixa-se arrastar à guerra da Itá­lia pelos conselhos do papa e de seu filho, César Bórgia, e a França vê submergir os seus tesouros naquelas guerras deploráveis.

Francisco I chama para junto da sua pes­soa os bispos do reino, os fidalgos das pro­víncias; e, para aumentar a magnificência da sua corte, vende-Ihes os cargos do esta­do. O seu fanatismo reacende as fogueiras nas cidades do meio-dia, e o parlamento da Provença, auxiliando o seu furor, faz dego­lar seis mil pessoas sem perdoar nem o sexo, nem a velhice, nem a infância.

Depois de ter arruinado o reino, regado a Itália com o sangue francês, ter sido feito prisioneiro em Pávia e ter dado pelo seu resgate dois milhões de escudos de ouro, os ducados de Borgonha, d' Artois e de Flandres, Francisco I morreu de uma doen­ça infame que adquirira nos braços da for­mosa Feronniére.

Henrique II estabeleceu uma câmara ar­dente contra os luteranos do reino, e assis­te, rodeado por sua corte, aos suplícios das numerosas vítimas dos furores católicos.

Os desgraçados protestantes, amarrados por uma corrente de ferro a um poste que girava em forma de alçapão, eram sepultados em braseiros inflamados. Em seguida, aquela máquina infernal, tornando a subir pelo seu próprio impulso, suspendia-se um momento e, tornando a precipitá-Ios nas chamas, renovava sofrimentos e torturas es­pantosas.

Os gritos dilacerantes de um daqueles desgraçados feriram com tal violência a alma atroz daquele rei, que durante toda a sua vida conservou deles uma recordação aterradora que o perseguia até nos lugares mais retirados do seu palácio.

Francisco II reina quinze meses, e os suplícios dos hereges continuam; contudo, a raiva sucede a paciência: os protestantes, que se tinham multiplicado ao clarão das fogueiras e debaixo do ferro dos algozes, imitam, afinal, por justas represálias, as crueldades dos seus inimigos. A França abra­sa-se em guerras civis; uma paz mais fatal do que a guerra sucede à carnagem, e a barbárie, unindo-se à covardia, lança por sobre os povos os fachos do fanatismo.

A inquisição é introduzida na França, autorizada pelo conselho do rei e pelos par­lamentos: só o chanceler de I 'Hospital, o único homem de bem daquele século cor­rompido, opõe-se ao estabelecimento da­quele tribunal odioso.

Depois da morte de Francisco lI, cami­nhamos através dos cadafalsos, das forcas e das fogueiras. Províncias inteiras estão re­duzidas a cinzas, entregues à fome, à deso­lação e ao roubo. Todos os crimes cometi­dos pela ambição e pelo fanatismo, depois do concílio de Nicéia, empalidecem em pre­sença desse novo reinado, e Carlos IX colo­ca-se na história entre esses monstros cujo nome basta tão-somente para despertar um sentimento de horror e de medo.

Apenas subindo ao trono, aprende a arte de governar pela intriga e pela perfídia. Organiza massacres contra os protestantes de Paris, Amiens, Meaux, Châlons, Troyes, Moulins, Clermont, Nevers, le Mans, Angers, Tours, Rouen, Poitiers, Toulouse, Bordeos, etc., etc.; por toda a França se exer­cem essas horríveis carnificinas, e, para ver­gonha eterna da magistratura, o parlamen­to de Paris promulga um acórdão que per­mitia fossem degolados os protestantes onde quer que os encontrassem.

Os homens pereciam pelo ferro e pelo fogo; as mulheres eram violadas antes de ser enforcadas, afogadas ou massacradas, e os seus cadáveres manchados ainda pela luxúria daqueles algozes fanáticos.

Os padres e os frades eram os próprios a degolarem aquelas vítimas inocentes; em nome do pontífice de Roma e do rei Carlos IX!!!

Os crimes de Catarina de Médici, dos duques de Guise, do cardeal de Lorena e dos seus escravos vieram a aumentar o nú­mero de desastres desse reinado.

Todavia, todos esses atentados como que se apagam diante da recordação da São Bar­tolomeu! Ouve-se o sino fatal!... O sinal dado pelo relógio do palácio ressoa por toda a França!... Tigres ferozes e esfaimados pre­cipitam-se sobre os protestantes, arrancam-­nos de suas casas, deitam-nos pelas janelas sobre as lanças dos soldados, mutilam ver­gonhosamente aqueles corpos ensanguen­tados, arrastam pelas ruas os cadáveres das mulheres, esmagam as crianças nos berços!

Carlos IX arma-se com um arcabuz, e da famosa janela do Louvre fere com a bala homicida os desgraçados que fugiam a nado para escaparem ao punhal dos assas­sinos!!!

O massacre durou três dias em Paris e dois meses em toda a França. Quarenta mil protestantes foram assassinados nos esta­dos do rei cristão!!!

Depois daqueles dias sanguinários, Ca­tarina de Médici e seu filho, cercados de um brilhante cortejo de senhores ricamente vestidos e de mulheres coroadas de flores e de pedrarias, dirigiram-se a Montfaucon para contemplar aqueles corpos completa­mente nus e horrivelmente mutilados, que lutavam contra a agonia da morte.

Henrique III sobe ao trono e acompa­nha-o um séqüito de validos, ministros dos seus infames deboches.

Por ordem sua, o cardeal e o duque de Guise são apunhalados no seu palácio, de­pois de lhes ter jurado sobre o altar uma amizade leal.

Forma-se uma liga para pedir contas ao rei daquele duplo crime; os sacerdotes e os frades pregam abertamente a morte do tira­no, e Jacques Clemente termina, por um assassinato, o reinado aviltante de Henri­que III.

Com esse príncipe, extingue-se o ramo dos Valois. Henrique IV, rei de Navarra, da casa de Bourboun, toma-se o herdeiro do trono.

Pelo seu caráter cavalheiresco e pela sua bravura, Henrique adquire a simpatia dos soldados, ganha batalhas, põe fim à liga e obtém a coroa abraçando a religião católica.

Nesse novo reinado, suspendem-se as perseguições e os povos respiram; minis­tros hábeis põem ordem nas finanças, dimi­nuem os impostos, reprimem a licença dos soldados e tomam querido o monarca; to­davia, os padres armam a mão do fanático Ravaillac, e Henrique morre assassinado.

Luiz XIII abandona a direção do reino a sua mãe Maria de Médicis, acusada do as­sassinato de seu marido; mudando em se­guida de opinião, faz massacrar debaixo dos seus olhos o marechal d' Ancre, favorito de sua mãe; expulsa esta do reino e deixa-a morrer de fome em Colônia.

Os cárceres da Bastilha enchem-se com as vítimas do rei ou do seu indigno minis­tro.

Em seguida, o cardeal de Richelieu e Luiz XIII, à frente de um formidável exérci­to, vêm pôr cerco a Ia Rochelle. Os habitan­tes desta cidade corajosa recusaram entre­gar-se à discrição de seus ferozes inimigos, declarando que ficariam sepultados nas ruí­nas das suas muralhas. Apertados pelos hor­rores da fome, deixaram sair da cidade as mulheres, os velhos e as crianças, que se espalharam pelas planícies entre o campo dos sitiantes e os muros da praça, a fim de encontrarem algumas ervas para devorar.

Então, o cardeal, ministro de um Deus de Paz, e o monarca, imbecil e devoto, or­denaram às suas tropas que atirassem sobre aqueles espectros descamados e trêmulos. E, para vergonha do século, houve solda­dos que executaram as ordens sanguinárias daqueles dois tiranos!...

Richelieu, em nome do rei, ordena as proscrições, os assassinatos jurídicos, e ter­mina as suas execuções sanguinárias pela morte de Cinq-Mars e do virtuoso de Thou.

Luiz XIV começa um reinado de 72 anos; reinado de glória, de grandeza, de cri­mes e calamidades.

Rei absoluto, resumindo toda a nação na sua individualidade, dissolve, aos 15 anos, o parlamento de Paris e derruba o único po­der que havia entre o trono e o povo. As câ­maras tentam fazer algumas observações ao monarca, e o rei manda prender os conse­lheiros e encerra-os nos cárceres da Bastilha.

Depois da extinção das guerras civis, orgulhoso das suas primeiras vitórias, entra no parlamento, de chicote na mão, dissolve a assembléia e proíbe toda e qualquer opo­sição aos seus éditos.

O terror do despotismo domina a França inteira, e Luiz XIV pôde desenvolver, sem receio, o fausto e o orgulho dos soberanos da Ásia. As lágrimas do povo transformam-­se em ouro, e as riquezas da nação servem para pagar as amantes e os escravos titula­res desse rei voluptuoso.

Mas este príncipe ativo e orgulhoso para com os fracos obedece covardemente às ordens de Cromwell e expulsa os Stuarts dos seus estados.

Mentindo à sua palavra, faz um tratado com a Espanha e envia socorros a Portugal; vende a sua proteção aos holandeses e, de­pois de ter recebido o dinheiro daquela ver­gonhosa negociação, recusa-se a reunir os seus navios aos dos seus aliados.

Espoliador, infame, usurpa as províncias do filho de Carlos II, seu cunhado, rei da Espanha, de quem devia ser o protetor, e divide os seus despojos com o imperador da Áustria.

O franco-condado é invadido com a mesma iniqüidade; a conquista dura três semanas, e Luiz XIV faz essa campanha cer­cado de toda a pompa e grandezas da corte.

Os seus sucessos haviam sido rápidos; mas cinco dias bastam para cimentar uma liga entre a Holanda, a Inglaterra e a Suécia, e entravar os progressos do seu exército.

Um republicano de Amsterdã obriga aquele rei orgulhoso a restituir o franco-­condado à Espanha.

Turenne, por ordem de Luiz XIV, devas­ta o Palotinado e destrói mais de 30 cida­des.

A Alsácia é pilhada pelos próprios fran­ceses para impedir que os alemães penetras­sem ali.

Afinal, os gritos da França despovoada assustaram o monarca e obrigaram-no a con­cluir a paz.

Então o seu furor voltou-se contra os seus súditos; escravo pusilânime dos jesuí­tas e da corte de Roma, sonha com a des­truição dos protestantes e revoga o edito de Nantes: despojam-se os calvinistas e são condenados à roda ou à forca; os dragões invadem os castelos e as cidades a expulsa­rem os protestantes; as fronteiras são guar­dadas para prevenir a fuga dos reformados, e a França transforma-se num vasto recinto, guardado por homens sem piedade, no meio do qual os bandos de assassinos são guia­dos pelos padres e pelos bispos.

Os espíritos exaltam-se, os protestantes reúnem-se, organizam-se exércitos e a Fran­ça é um vulcão. As dragonadas das Cevennas estendem-se pelas províncias meridionais; os soldados queimam as cida­des, pilham os castelos, violam as mulhe­res, mutilam os cadáveres e deixam deser­tos na sua passagem. Os calvinistas, por seu turno, perseguem os exércitos do rei, exer­cem as suas vinganças contra os católicos, cometem os mesmos crimes como represá­lias, e as igrejas e os castelos são mais uma vez a presa das chamas.

Luiz XIV, enfraquecido pela idade e ven­cido pelos flagelos que ele próprio atraíra sobre os seus estados, morre, como Luiz XI, coberto de relíquias e entregue aos terrores do inferno.

Fanático até o frenesi, pérfido nos seus tratados, egoísta sem piedade, déspota inso­lente, aquele rei custou 20 milhões à França e preparou os desastres dos seus sucessores.

O seu testamento é anulado pelo parla­mento, que nomeia Filipe d'Orleans regen­te do reino.

Época de escândalos, de libertinagem, de seda e de ouro para os cortesãos, de lá­grimas e de miséria para os povos.

O regente e a duquesa de Berri, sua fi­lha, entregam-se sem pudor aos seus amo­res incestuosos; a sua imoralidade deprava a nação e os costumes das bacantes intro­duzem-se nas famílias.

Mas os vícios da regência são excedi­dos, ainda, pelos de Luiz XV. As suas aman­tes governam o estado, vendem os exérci­tos e dilapidam as finanças, enquanto que aquele rei sibarita esquece as desgraças da nação nas orgias e nos incestos. As suas fa­voritas tomam-se os seus fornecedores, rap­tam as raparigas, encerram-nas no infame Parc aux-cerfs e entregam o pudor ao ci­nismo do monarca. Uma cortesã recebe o ouro dos estrangeiros para lhes assegurar a vitória das batalhas e faz massacrar 400 mil homens nas guerras com a Itália, Inglaterra, Alemanha e Prússia. A marinha é aniquila­da, o comércio destruído, e as divisas do Estado são mais enormes ainda que no tem­po de Luiz XlV.

O rei, para encher os seus tesouros, torna-se o algoz do seu povo; os monopoliza­dores lançam mão dos trigos, e Luiz XV é o chefe do pacto de fome.

Em breve, as agitações surdas de Paris se estendem por todas as províncias; a na­ção, desolada pelos massacres dos reinados precedentes, extenuada pelas depredações, começa a sair do seu letargo.

Catorze séculos de desgraças e de cri­mes assinalaram a passagem dos reis; os povos fulminam com anátemas aquelas ca­beças criminosas e preparam o dia das vin­ganças.

Luiz XVI sobe ao trono. Homem virtuo­so, mas rei fraco, entrega-se aos conselhos de cortesãos pusilânimes; os seus sonhos insensatos são impotentes para suspender a marcha dos espíritos, e a Bastilha desaba com os seus cárceres horríveis.

Tem lugar uma revolução imensa: é pro­clamada a soberania do povo, e Luiz XVI sobe ao cadafalso.

Ligam-se os tiranos da Europa; nume­rosos exércitos marcham contra a França; o ouro dos reis paga as traições, revolta a Vendea e lança o Estado numa grande con­fusão.

Bonaparte eleva-se; o seu gênio fascina os povos; a sua palavra eletriza os soldados e os seus exércitos arvoram a bandeira da república nas capitais dos reis.

Napoleão, vencedor da Europa, em todo o esplendor da sua glória, tem nas mãos os destinos do mundo! Mas Deus não marcara ainda o termo da escravidão dos povos, e o império sucede à república.

Século de prodígios! As batalhas são en­contros formidáveis, nos quais se aniquilam as nações! As conquistas são reinos inteiros! Os generais desses exércitos são reis! E o se­nhor de todos esses soberanos, de todos esses impérios, é um homem grande como o mun­do; é Napoleão, imperador dos franceses!!!

O eleito do povo esqueceu a sua missão divina; as nações perdiam a liberdade, e ele deu-Ihes reis... O seu poder desmorona-se nas planícies de Waterloo!

Começam os dias de luto; os Bourbons sobem ao trono, arrastando atrás de si um bando de cortesãos; chamam de novo os jesuítas, cercam-se com o aparelho dos su­plícios e sonham com séculos de tirania e fanatismo.

Carlos X ousa romper o contrato que o unia a uma grande nação, e os três imortais dias vêm ensinar aos homens que a autori­dade dos reis só é poderosa pela vontade dos povos, e que os povos podem ser sobe­ranos sem a vontade dos reis!

Luiz Filipe d'Orleans, instruído na es­cola do infortúnio, educado no meio dos tormentos revolucionários, admirador apai­xonado de Washington e de Ia Fayette, é escolhido o mais digno e proclamado rei dos franceses.

O príncipe, aceitando a coroa, jurou manter a honra da França, conservar o de­pósito sagrado das liberdades e aumentar a felicidade dos povos!

E a posteridade julgará!!!...

3. LITERATURA RECOMENDADA – Para quem deseja saber mais.

.A BÍBLIA SAGRADA. Versão Baseada no Texto Recebido, Almeida Corrigida e Fiel ao Texto Original. Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil.

.Jones, RICK. POR AMOR AOS CATÓLICOS ROMANOSAs 37 Doutrinas da Igreja Católica claramenta analisadas. Chick Publications. 1997.

.Fox, JOHN. O LIVRO DOS MÁRTIRESA Histótia dos Sofrimentos e morte dos cristãos primitivos e dos mártires protestantes. CPAD. 2007.

.Cornwell, JOHN. O PAPA DE HITLERA História Secreta de Pio XII. IMAGO. 1999.

.Yallop, DAVID. O PODER E A GLÓRIAO lado negro do Vaticano de João Paulo II. PLANETA. 2007.

.Justice, LAURENCE A. O CATOLICISMO ROMANO. Imprensa PLAVRA PRUDENTE. 2001.

.Stefano. GILBERTO. A ORIGEMDescrevendo a História dos Batistas, dos Católicos, dos Protestantes e dos Pentecostais. Imprensa PALAVRA PRUDENTE. 2006.

.Urqhart, GORDON. A ARMADA DO PAPAOs segredos e o poder das novas seitas da Igreja Católica. RECORD. 2002.

.Reis, Dr ANÍBAL PEREIRA. Ex-Padre. TODOS os seus livros, numa lista que excede 50 trabalhos publicados, na sua maioria recentemente re-publicados pela EditoraEDIÇÕES CRISTÃS.

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